Falta de estrutura desafia médicos no interior

Os médicos e enfermeiros do Programa de Interiorização da Saúde (PIS) que, semana passada, chegaram a Tutóia (MA) terão de conviver com a falta de estrutura para atender pacientes. Três vilarejos acabaram de inaugurar postos de saúde financiados com recursos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). A maioria dos 252 povoados, entretanto, não conta com uma estrutura de assistência à saúde. O agente de saúde Raimundo Pereira da Costa informou que, na corrida por votos, alguns políticos costumavam patrocinar a construção de locais precários para abrigar o atendimento à saúde. Passadas as eleições, os tais "postos" acabavam no esquecimento. Na semana passada, a enfermeira catarinense Rosimery Leite, uma das enviadas pelo PIS a Tutóia, já se conformava com a realidade local e defendia o uso de criatividade para driblar a falta de postos. Uma saída, defendeu, seria utilizar as estruturas das escolas e igrejas. "Se for preciso, montaremos uma caixa de vacinas e percorreremos as casas atrás dos pacientes", comentou a enfermeira que, durante o reconhecimento da área onde passaria a trabalhar, só se chocou ao ver porcos perambulando pelas ruas. "Porco aqui é criado como cachorro!", espantou-se também a médica carioca Ana Maria Moraes Guzzo, 25 anos de experiência. Os médicos e enfermeiros saíram de cidades grandes. A enfermeira Rosimery explicou que o porco pode transmitir cistercircose, que afeta coração e pulmão e às vezes até o cérebro. O convívio com o porco como se fosse um animal de estimação facilita a contaminação. "Fico indignada, esses porcos deveriam estar num cercadinho", reclamou, já ciente de que será difícil mudar essa cultura local. Nos primeiros dias em Tutóia, o grupo de médicos e enfermeiras também teve de enfrentar uma outra realidade: a maioria das residências da área rural não possui fossa e vaso sanitário, então, é raridade. A experiente enfermeira mineira Maria Dositheia Teixeira Nogueira precisava de um banheiro e pediu para que a dona de uma casa lhe indicasse o caminho. Passaram por dentro do casebre e a mulher lhe abriu a porta da cozinha que dava acesso ao quintal. "Pode escolher uma dessas árvores", ofereceu. A adaptação desses médicos à realidade local incluirá ainda o uso de ervas medicinais, observa o secretário de Saúde da cidade, padre Francisco das Chagas Pereira, que já antecipa ter dificuldades em adquirir grande quantidades de remédios. "Chá até para pneumonia?", assustou-se a médica Hellen da Rosa Lima, exagerando no exemplo, durante uma conversa informal com o secretário e padre. "Te chamo para benzer o paciente", ameaçou, em tom de brincadeira.

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