Falta assistência a grávidas soropositivas

De cada dez grávidas soropositivas que deram à luz no ano passado no Brasil, menos de quatro receberam AZT injetável na hora do parto a fim de evitar a transmissão do vírus HIV para o bebê. O tratamento pode reduzir as chances de contaminação de 25% para quase zero. As outras tiveram seus filhos sem ter acesso à política de saúde pública adotada pelo Ministério da Saúde em 1997.É o que mostra uma pesquisa realizada pela Coordenação Nacional de Aids, um órgão do próprio ministério. No ano passado, o Brasil tratou 5.990 de um total de 17.198 grávidas com aids. O levantamento revela que as diferenças regionais são muito grandes. Enquanto em São Paulo 60% das mulheres HIV positivas foram tratadas, no Amapá e em Alagoas nenhuma grávida recebeu AZT para evitar a transmissão."Isso mostra que a preocupação com a aids está concentrada no Sul e no Sudeste", diz Raldo Bonifácio Costa Filho, da Coordenação Nacional de Aids. "E indica que o exame pré-natal nessas regiões ainda é muito falho."Para evitar que uma mulher transmita o vírus da aids para o filho, o primeiro passo é fazer, durante o pré-natal, o exame de HIV. Se o vírus é encontrado, os médicos analisam se a grávida deve ou não ser tratada - dependendo do estágio da gravidez. Na hora do parto, os médicos aplicam AZT injetável na grávida e dão um xarope com o mesmo remédio para o bebê nos primeiros meses de vida. Com isso, quase todos os filhos de mulheres soropositivas conseguem nascer sem a doença.No Programa de Assistência Integrada à Gestante HIV + do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos centros de excelência do Rio, a taxa de transmissão de mãe para filho caiu de 39,8% para 1,6%, desde 1997, segundo a coordenadora, Susie Andries Nogueira. "É um avanço fantástico, mas o processo ainda sofre deficiências na sua organização", critica.O baixo porcentual de favorecidas pelo tratamento tem uma explicação simples. Há falhas no sistema de teste do HIV, que deveria estar disponível para todas as grávidas em qualquer hospital brasileiro. Como isso não acontece, o Ministério da Saúde oferece um recurso de última hora, o exame rápido. Ele pode ser feito no dia do parto, e a mulher não perde a chance de ser tratada.O problema é que o teste rápido está em falta em quase todos os hospitais do País porque o estoque do ministério acabou. A falta é conseqüência de uma briga judicial entre o ministério e uma empresa fornecedora de kits de testes, que contesta a última licitação feita pelo governo. Para tentar solucionar o problema, o coordenador-adjunto do Programa de Aids do ministério pediu, e conseguiu, aprovação ao Banco Mundial para fazer uma compra especial. Quer adquirir 90 mil testes até o fim de fevereiro, a fim de repor o estoque por três meses e meio. "É uma solução temporária, que nos dará tempo para resolver tudo na Justiça. Mas tem que ficar claro que esses testes rápidos são apenas um paliativo. O que temos que fazer é resolver o problema da qualidade do pré-natal", disse Costa Filho.Susie Nogueira, que além de coordenadora do programa para grávidas do Hospital Universitário é professora-adjunta de Doenças Infecciosas e Parasitárias da UFRJ, discorda. Ela defende o uso dos testes rápidos no início da gravidez, como medida preventiva. "Hoje, o Brasil tem drogas que podem evitar que os bebês peguem aids. Por que não usar esses testes para zerar as transmissões?"A eficiência do diagnóstico de Aids e do tratamento com AZT pode mudar a vida das mulheres grávidas soropositivas. Foi o caso de Carina Conceição de Moraes, de 28 anos. A dona de casa começou a tomar as drogas antiaids durante a gestação. "Minha gravidez foi tranqüila. Tudo correu bem", disse, sorrindo, com uma de suas filhas no colo. Carina teve gêmeas idênticas, e as meninas não têm o vírus.A seu lado, o marido, Roterdan Pinheiro, também portador do vírus da aids, segurava a outra menina. "Estamos muito felizes. Está tudo bem com elas, e é o que importa", disse Roterdan. Além das gêmeas Gabriele e Isabele, de 4 meses, o casal têm outros dois filhos, Ariel, de 7 anos, e Daniele, de 4. Têm mais motivos para comemorar. Os dois estão com carga viral indetectável, o que significa que o vírus está sob controle e não há riscos de manifestação da doença.Carina e Roterdan têm que ir ao hospital uma vez por mês. Além das visitas ao médico, eles têm que pegar o leite que o hospital fornece para as mães HIV +, já que elas não podem amamentar. "Temos que continuar vindo, mas as meninas já tiveram alta porque não têm nada. Isso é tão bom", diz Carina.

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