Falsificação gera prejuízo de US$ 12 bi por ano ao País

De lâmina de barbear, preservativo, lâmpada, bebida, tênis, CD e pilha a cigarro, perfume, talão de zona azul e cédulas de identidade. Todos os dias milhares de brasileiros adquirem produtos piratas cada vez mais produzidos no País, em fábricas de fundo de quintal, ou os falsificados e contrabandeados do exterior.A grande maioria sabe exatamente o que está comprando. ?Falsificam até camisetas da campanha nacional contra o câncer de mama. Em 2001, o prejuízo da campanha foi de R$ 500 mil. Estamos apurando para colocar os responsáveis na prisão?, diz o delegado Manoel Camassa, da Delegacia de Estelionatos Civil de São Paulo. O avanço desse tipo de atividade criminosa é tamanho que a cúpula da polícia paulista se reuniu na semana passada para estabelecer estratégias específicas para o combate à pirataria. Os prejuízos anuais chegam a US$ 12 bilhões, segundo dados revelados no seminário da Confederação Nacional da Indústria (CNI), no mês de agosto, em Brasília, que discutiu a situação das falsificações e prejuízos causados aos empresários brasileiros. Em 2001, a atuação de falsários e contrabandistas impediu que a Receita Federal arrecadasse cerca de R$ 2,5 bilhões em impostos. Consciência ? Camassa afirma que o consumidor tem consciência de que está adquirindo uma mercadoria que não é autêntica. ?Quem compra 60 pilhas alcalinas por R$ 5 e sabe que as verdadeiras custam em média R$ 2 cada uma não pode ignorar que está sendo enganado e comprando um produto de péssima qualidade e mínima duração?, explica. A maior parte dos produtos falsificados ainda chega ao Brasil vinda da China, Cingapura, Coréia e Malásia. Em contêineres, as mercadorias são desembarcadas nos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR). Seguem para o Paraguai e voltam depois ao Brasil como contrabando. Mas nas grandes cidades brasileiras têm aumentado as chamadas fábricas de ?fundo de quintal?. Em especial as que preparam bebidas e perfumes. Há ainda a indústria nacional do papel que falsifica dinheiro, tíquetes refeição, vales transporte, bilhetes de trem, carteira nacional de habilitação, identidade, CPF e todo o tipo de atestado médico. São Paulo e Rio, pelo número de ambulantes e lojas clandestinas, são apontados pela Polícia Federal como os mais ?ativos? no ranking da venda dos produtos falsificados.O Estado mostrou em reportagem de março de 2001 uma feira paralela, especialmente de produtos piratas, que ocorria e ainda ocorre nas madrugadas na Rua 25 de Março, no centro. A recente alta do dólar tem atraído os compradores locais e de outros Estados, que costumavam ir ao Paraguai, para São Paulo, aumentando ainda mais o movimento na 25 de Março e região. Goiás ocupa a terceira posição como distribuidor de mercadorias contrabandeadas para o Nordeste e Mato Grosso e um dos principais centros de produção de grifes. Junto das grifes famosas no exterior estão aparecendo também as nacionais mais cotadas. Os ambulantes e as pequenas lojas de ?produtos importados? vendem cartelas de lâminas de barbear Gillatte. A tentativa é ?enganar? o comprador como se estivessem vendendo material original da Gilette. As escovas de dentes Colgote passam como se fossem Colgate. As lâmpadas Philips falsificadas têm dois ?ll?. Os tênis falsificados da Nike têm a marca de fabricação colocada sobre o logotipo da multinacional. ?Na venda, o ambulante ou dono da loja tira o velcro com a marca do falso fabricante e entrega o tênis. O comprador sai como se estivesse levando a grife conhecida.? O policial está montando na delegacia uma pequena loja com todo o tipo de mercadoria falsificada vendida em São Paulo. Para ele, a pirataria não tem limite. O Brasil está se tornando o País dos descartáveis. O brasileiro, segundo o delegado, está se acostumando a consumir produtos de péssima qualidade. O falsário somente se preocupa com o dinheiro. Bebidas ? Em São Paulo, a indústria da bebida falsificada está cada vez mais ativa. Bares, danceterias, restaurantes, vendem vodca, conhaque, Campari, uísque, cachaça e licor falsificados em fábricas de fundo de quintal. O Amarula, licor sul-africano, é feito no País e vendido em bares e danceterias da capital em pequenos copos de plástico. Segundo Camassa, o Amarula não existe em copo e jamais existiu. ?É coisa de falsário brasileiro e quem bebe está consumindo uma bebida completamente falso.? Para produzir os uísques, os falsários misturam bebidas baratas e engarrafam em cascos com rótulos de marca conhecida. A higiene não existe para estes engarrafadores de bebidas. As garrafas são até compradas dos catadores de papel e de lixo. Falsificar bebida é considerado crime hediondo e, se condenados, os autores não terão o benefício da Lei das Execuções Penais. Deverão cumprir a pena integralmente. Top de linha ? Os cigarros de segunda linha são os mais falsificados. Um deles, o Derbi, da Souza Cruz, é o campeão. Os cigarros são preparados com tabaco de quinta categoria. Os selos nos maços também são falsos. O imposto taxado para os cigarros é alto e as quadrilhas, além da sonegação de impostos, lesam o governo na adulteração do selo. Segundo a polícia, já há fábricas desse tipo de produto sendo investigadas no Rio. Os perfumes também estão na relação da indústria da falsificação. Os camelôs e pessoas que se apresentam como vendedoras de produtos contrabandeados oferecem Azarro, Ferrari, Dolce Gabana, Gabriela Sabatini, Couros por R$ 20 a R$ 30 o frasco. ?Eles costumam custar mais de R$ 150. Pegamos um sujeito que falsificava perfumes franceses num flat. Era uma sujeira! Não dá para entender como conseguem usar o perfume falso e barato?, diz Camassa. Punição ? Falsificar documentos públicos como cédula de identidade, carteira de habilitação, CPF, atestados médicos é crime com pena de 2 a 6 anos de prisão para os culpados. Pela falsificação de moeda, a condenação vai de 3 a 12 anos de prisão. Falsificar selos, estampilhas de cigarros, passe de ônibus, tem pena de 1 a 4 anos.

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