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Falsa magra

Marina Silva não é política de golpes baixos nem de expressões grosseiras. Isso já ficou demonstrado na campanha presidencial anterior e ao longo do mandato dela como senadora.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2014 | 02h03

Mas Marina Silva é mulher de levar o adversário às cordas sem ferir a regra do jogo. Capaz de engolir o sapo só até onde considera suportável. Isso ficou demonstrado por ocasião do pedido de demissão do ministério do Meio Ambiente.

O então presidente Lula ficou sabendo quando a notícia já era de conhecimento público e circulava na internet a famosa frase: "Perco o pescoço, mas não perco o juízo".

Pego de surpresa pela reação de Marina à entrega do projeto de política ambiental para a Amazônia ao então titular da pasta de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, na cerimônia de transmissão de cargo Lula ainda tentou brincar com a demissionária. Ela, no entanto, se manteve impávida na mesa das autoridades, sem dar um sorriso.

Começou ali a ganhar publicamente a fama de inflexível que consolidaria dois anos depois, na eleição de 2010, ao decidir não indicar aos seus 20 milhões de eleitores preferência por nenhum dos concorrentes ao segundo turno, Dilma Rousseff e José Serra.

Muita gente entre seus aliados considerou um erro. Bem como vários de seus correligionários relegaram ao terreno do equívoco a demora na articulação das providências práticas para a criação do partido Rede de Sustentabilidade.

Fruto da virtude ou da fortuna, fato é que Marina volta agora à disputa partindo do patamar com que terminou a campanha de 2010. Pode ser um indicativo de acerto sob a ótica do eleitorado, contrariando a interpretação dos políticos.

Caso seja isso mesmo, haverá uma dificuldade adicional na perspectiva dos adversários que pretendem desmontar a candidatura da inesperada concorrente. Ao mesmo tempo vão precisar tomar cuidado para não transformá-la numa doce vítima do "conservadorismo" ou da "falta de compostura" que "está aí".

Contra a tese da candidata refratária à política tradicional, existe a realidade nua e crua: as necessidades do caixa da campanha, o tempo de televisão nas mãos do PSB, os acordos partidários em 14 dos 27 estados (inclusive em São Paulo) contrários aos interesses de Marina, o apoio da família de Eduardo Campos aos compromissos firmados anteriormente por ele para impedir Marina de impor suas vontades.

Mas há o outro lado da real politik: quem tem os votos é ela e isso dá ao jogo igualdade de condições.

Credenciais. Homenagens a Eduardo Campos à parte, no primeiro horário eleitoral PT e PSDB marcaram a diferença central na conceituação dos respectivos discursos de campanha: o papel do governo na relação com a sociedade.

Dilma Rousseff tenta transmitir ao eleitor a mensagem de que o Estado é tutor do bem estar dos cidadãos e que sem a continuidade do PT no poder este ente provedor e "solucionador" se desmantela.

Aécio Neves tenta mostrar justamente o contrário: que o problema do País é o governo, ao atribuir à administração "dos últimos quatro anos" tudo o que deu errado e "ao esforço dos brasileiros" tudo o que deu certo.

Lula mais uma vez apareceu como o fiador de Dilma, pedindo aos indecisos que renovassem o voto de confiança nela, mas o destaque foi a presidente. Desta vez, apresentada numa moldura mais humanizada.

Já não é a gerente austera, materialização da eficiência, mas a mulher que além de governar, lê, ouve música, cozinha e cuida do neto. Construção perfeita para quebrar a rejeição.

O PSB, ainda sem a candidatura de Marina Silva oficializada, não tinha outra coisa a fazer: homenageou Eduardo Campos e não o fez em clima de condolências, mas em atmosfera de bom astral conforme o perfil do ex-governador traduzido na frase testamento, "não vamos desistir do Brasil".

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