Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Bolsonaro: ‘Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira’

Presidente deu declaração a jornalistas estrangeiros e depois, questionado, recuou dizendo que 'algumas pessoas' passam fome. Segundo a ONU, o número de brasileiros famintos passa de 5 milhões

Matheus Lara e Mariana Haubert, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2019 | 12h02
Atualizado 20 de julho de 2019 | 00h05

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro nesta sexta-feira, 19, que é uma “grande mentira” que existam pessoas passando fome no Brasil, contradizendo dados oficiais da ONU e números do Datasus, do Ministério da Saúde, em café da manhã com jornalistas estrangeiros no Palácio do Planalto – a conversa foi transmitida nas redes sociais (veja vídeo abaixo).

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não”, disse Bolsonaro, que, mais tarde, recuou e afirmou que “alguns passam fome”.

A declaração dada aos jornalistas estrangeiros, e que precisou ser corrigida, foi uma resposta de Bolsonaro a uma pergunta sobre desigualdade e combate à pobreza no País. O presidente brasileiro disse que “você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo”.

O presidente também criticou políticas de cunho social adotadas por governos anteriores. “Adotou-se do governo FHC (Fernando Henrique Cardoso) pra cá, PSDB e depois o PT, (a ideia de) que distribuição de riqueza é criar bolsa”, disse Bolsonaro. “É o país das bolsas. O que faz tirar o homem da miséria, ou a mulher, é o conhecimento.”

Dados divulgados em setembro do ano passado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e um grupo de agências da ONU revelaram que o combate à fome no Brasil se estagnou, apesar de o País ter saído do chamado Mapa da Fome em 2014.

A entidade apontou que, em 2017, havia “menos de 5,2 milhões” de brasileiros passando fome, uma mudança marginal em comparação aos números que vinham sendo apresentados nos últimos anos. Em 2014, essa taxa era de de 5,1 milhões. Dois anos antes, o volume era de 5 milhões. O ponto mais baixo foi atingido em 2010, quando cerca de 4,9 milhões de brasileiros eram considerados famintos, de acordo com entidade.

Os números são distantes da realidade de 1999, quando 20,9 milhões de brasileiros eram considerados desnutridos. Em termos porcentuais, no entanto, os dados da FAO apontam que a taxa continua estável e inferior a 2,5% desde 2008.

Após ter dito que não há fome no Brasil, o presidente afirmou não saber por que uma “pequena parte” da população passa fome e por que “outros passam mal ainda”.

“Olha, o brasileiro come mal. Alguns passam fome. Agora, é inaceitável um País tão rico como o nosso, com terras agricultáveis, água em abundância, até o semiárido nordestino tem uma precipitação pluviométrica maior do que Israel. E falei também na questão das Pequenas Centrais Hidrelétricas. Você leva dez anos para conseguir uma licença. E qualquer hectare de água produz de 10 a 15 toneladas de tilápia por ano. Então, um país aqui que a gente não sabe por que pequena parte passa fome e outros passam mal ainda”, afirmou.

Questionado sobre se estava voltando atrás na declaração inicial, o presidente ficou irritado e disse aos jornalistas que “não via nenhum magro”. “Ah, pelo amor de Deus, se for pra entrar em detalhe, em filigrana, eu vou embora. Eu não tô vendo nenhum magro aqui, tá certo? Temos problema alimentar no Brasil? Temos, não é culpa minha, vem de trás, estamos tentando resolver”, disse.

Tudo o que sabemos sobre:
Jair Bolsonarofome

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.