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Facebook derruba rede de perfis falsos ligada a funcionários dos gabinetes da família Bolsonaro

Plataforma anuncia retirada de páginas e contas de desinformação e perfis falsos vinculados a integrantes dos gabinetes do presidente e familiares, além de políticos do PSL

Bruno Romani, Camila Turtelli e Julia Lindner, O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2020 | 16h00
Atualizado 20 de julho de 2020 | 14h16

BRASÍLIA – O Facebook anunciou nesta quarta-feira, 8, que derrubou uma rede de contas e perfis falsos ligados a integrantes do gabinete do presidente de Jair Bolsonaro, a seus filhos, ao PSL e aliados. Foram identificados e removidos 35 contas, 14 páginas e 1 grupo no Facebook e 38 contas no Instagram.

O material investigado pela plataforma identificou pelo menos cinco funcionários e ex-auxiliares que disseminavam ataques a adversários políticos de Bolsonaro. Nessa lista está Tercio Arnaud Thomaz, que é assessor do presidente e integra o chamado “gabinete do ódio”, núcleo instalado no terceiro andar do Palácio do Planalto. 

A existência do “gabinete do ódio” – que mantém um estilo beligerante nas redes sociais e é comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) – foi revelada pelo Estadão em setembro do ano passado.

Os citados negaram irregularidades e classificaram a medida como arbitrária. O PSL disse que as contas são de responsabilidade dos parlamentares e não possuem relação com o partido (mais informações abaixo).

Um dos funcionários envolvidos nessa rede identificada pelo Facebook trabalhava para Carlos Bolsonaro, filho do presidente. Outro funcionário identificado é contratado do deputado estadual pelo PSL de São Paulo Coronel Nishikawa.

As páginas no Facebook tinham 883 mil seguidores, enquanto as contas no Instagram, 917 mil seguidores. Além disso, 350 pessoas estavam no grupo. A página “Bolsonaro Opressor 2.0” foi identificada à conta @bolsonaronewsss, que estava sob administração de Tercio.

INFOGRÁFICO: Luiza Bandeira/DFRLab

A rede de fake news derrubada pelo Facebook também inclui os deputados estaduais Anderson Moraes e Alana Passos, ambos do PSL do Rio.

Em maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes apontou indícios de que um grupo de empresários atuava de maneira velada financiando a disseminação de fake news e conteúdo de ódio contra integrantes da Corte e outras instituições. O ministro também definiu como “associação criminosa” o grupo do “gabinete do ódio”.

O controverso inquérito que apura ameaças, ofensas e fake news contra ministros do Supremo, conduzido por Moraes, pode pavimentar o caminho da cassação do presidente Jair Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A avaliação entre ministros do tribunal é a de que, caso seja autorizado, um compartilhamento das provas do STF com a Justiça Eleitoral deve dar um novo fôlego às investigações que apuram o disparo de mensagens em massa na campanha presidencial de Bolsonaro em 2018. A possibilidade dessas ações serem “turbinadas” com o inquérito das fake news do Supremo já acendeu o sinal de alerta do Palácio do Planalto.

Entre as violações, discursos de ódio

No material postado que foi identificado pelo Facebook estavam conteúdos relacionados às eleições, memes políticos, críticas à oposição, empresas de mídia e jornalistas, além de textos sobre o coronavírus. Segundo a rede social, parte do conteúdo dessa rede já havia sido removida por violar padrões de comunidade. Entre as violações estavam discursos de ódio. 

Os detalhes de toda a operação brasileira foram postados no site do Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab, instituição que realiza análise independente de remoções do Facebook por comportamento inautêntico coordenado.

O anúncio faz parte de uma remoção de redes de desinformação que operavam em quatro territórios postando conteúdo relacionado a assuntos políticos domésticos. Além do Brasil, foram derrubadas redes nos EUA, na Ucrânia e na América Latina, incluindo países como El Salvador, Argentina, Uruguai, Venezuela, Equador e Chile. No caso brasileiro, as investigações e remoções ocorreram a partir de notícias na imprensa brasileira e referências feitas ao assunto no Congresso durante a CPI das Fake News.  Veja o documento publicado pela rede social.  

Nathaniel Gleicher, diretor de Cibersegurança do Facebook, foi cauteloso em apontar o envolvimento direto ou o conhecimento de políticos na campanha, inclusive na coordenação das postagens. “Não podemos afirmar a ligação direta das pessoas citadas, mas podemos afirmar que pessoas associadas a eles e a seus escritórios se envolveram em comportamento inautêntico na plataforma.”

Segundo o executivo do Facebook, não há indícios de que uma empresa foi contratada para realizar o trabalho, como aconteceu nos outros países latinos. Foi gasto US$ 1,5 mil em impulsionamento dos conteúdos no Facebook. De acordo com a Atlantic Council, o envolvimento de funcionários de gabinetes pode indicar que a operação usou recursos públicos, pois as postagens eram feitas durante o horário de expediente. 

O relatório da DFRLab aponta que Tercio Arnaud administrava páginas e contas com conteúdo de ataques a adversários políticos do governo, em muitos casos com teor considerado “enganoso” e que misturava “meias-verdades para chegar a conclusões falsas”. 

Em agosto do ano passado, Bolsonaro compartilhou, pelo Facebook, uma publicação que chama o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Lava Jato, de “esquerdista estilo PSOL”. O link divulgado pelo presidente redirecionava a página para um post do perfil Bolsonaro Opressor 2.0. Antes de atuar no governo, Tercio trabalhou para o gabinete do vereador Carlos Bolsonaro no Rio de Janeiro. Ele ocupava cargo de auxiliar de gabinete.

O DFRLab também identificou dois assessores do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). São eles Paulo Eduardo Lopes (conhecido como Paulo Chuchu) e Eduardo Guimarães. Guimarães é funcionário do gabinete de Eduardo Bolsonaro na Câmara. Já Oliveira foi exonerado no dia 26 de junho e agora está registrado como assessor do gabinete do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), aliado do governo. 

O relatório do DFRLab cita a página “Bolsofeios” como sendo de Guimarães. A ligação já havia sido apontada pela CPI das Fake News, que identificou atualizações do perfil a partir de um celular do assessor de Eduardo. 

Um dos perfis excluídos é o “Jogo Político”, no Facebook e Instagram, que compartilhava publicações do site de mesmo nome, registrado por Leonardo Rodrigues de Barros Neto. A página do site no Twitter está suspensa. Ex-assessor da deputada estadual no Rio Alana Passos (PSL), Barros Neto é responsável também pelos perfis “Bolsoneas”, que recentemente foram derrubados pelo Twitter. Ele costuma se apresentar como “Leonardo Bolsonéas” e seu principal perfil foi alvo do inquérito das Fake News em curso no Supremo Tribunal Federal.

Parlamentares à frente da comissão afirmaram que o banimento das contas está em linha com fatos revelados pela investigação e que o caso reforça a necessidade de ter acesso ao conteúdo publicado por meio dessas contas excluídas. 

Flávio reclama de julgamentos sem o ‘contraditório’

Em nota para comentar a ação do Facebook, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) afirmou que “julgamentos que não permitem o contraditório e a ampla defesa não condizem com a nossa democracia, são armas que podem destruir reputações e vidas”. 

“Pelo relatório do Facebook, é impossível avaliar que tipo de perfil foi banido e se a plataforma ultrapassou ou não os limites da censura”, disse o senador na nota. Flávio afirmou ainda que o governo Bolsonaro foi eleito com forte apoio popular nas ruas e nas redes sociais. “Por isso, é possível encontrar milhares de perfis de apoio. Até onde se sabe, todos eles são livres e independentes.”

A reportagem ligou e enviou mensagens para o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), mas ele não respondeu até a conclusão desta edição. Paulo Eduardo Lopes e Eduardo Guimarães também não responderam. 

Procurado, Tercio Arnaud Tomaz, assessor especial da Presidência, não quis comentar o conteúdo do relatório. O Palácio do Planalto também não se manifestou. 

O deputado estadual de São Paulo Coronel Nishikawa (PSL) afirmou, por meio de nota, que foi tomado de surpresa pela notícia que citava o servidor lotado em seu gabinete na Alesp, Jonathan Willian Benetti. Ele disse que, ao questionar funcionário, ouviu que ele não tinha conhecimento de nenhuma conta sua suspeita. O deputado disse ainda que não compactua com disseminação de fake news. O advogado do deputado afirmou ao Estadão que, apesar de ele ter se eleito com bandeira bolsonarista em 2018, não é próximo da família do presidente. O Estadão entrou em contato com Jonathan, mas não obteve resposta. 

O deputado estadual fluminense Anderson Moraes (PSL) classificou como “absurda e arbitrária” a ação do Facebook. “O governo Bolsonaro foi eleito com forte apoio nas redes sociais, perfis livres. Querem tolher a principal ferramenta da direita de fazer política”, disse.

Outra bolsonarista da Assembleia Legislativa do Rio, Alana Passos (PSL) afirmou que ela e seus funcionários não tiveram nenhum tipo de bloqueio. A deputada fez questão, contudo, de dizer que não pode responder por eventuais conteúdos publicados por seus assessores, e está à disposição para prestar qualquer esclarecimento. “Nunca orientei sobre criação de perfil falso e nunca incentivei a disseminação de discursos de ódio”, disse a parlamentar. 

Em seu site Jogo Político, Barros Neto reclamou de ter sido banido e questionou se “a democracia acabou?”. Leonardo negou propagar “discurso de ódio”. “Meus dois perfis no Twitter (página e perfil pessoal) acabaram de ser banidos de uma única vez. Nunca tive nenhuma única publicação removida na plataforma, todos os meus dados estavam cadastrados, como e-mail, celular etc. Quem me segue, sabe que meu perfil não propaga nenhum tipo de discurso de ódio, pelo contrário. O Estadão não conseguiu contato com Barros Neto.

A direção nacional do PSL divulgou nota negando envolvimento do partido na rede de perfis falsos e de divulgação de fake news pelo Facebook e o Instagram. 

“Não é verdadeira a informação de que sejam contas relacionadas a assessores do PSL, e sim de assessores parlamentares dos respectivos gabinetes, sob responsabilidade direta de cada parlamentar, não havendo qualquer relação com o partido”, diz o partido.

PSOL pede inclusão do caso no inquérito das fake news

O PSOL endereçou uma petição nesta quarta ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito das fake news no STF, na qual pede que o magistrado solicite “busca e apreensão” das provas e indícios colhidos pelo Facebook.

“Como tem sido revelado, há um esquema que desafia constitucionalmente o Estado Democrático de Direito. Na Democracia constitucional, os agentes públicos, inclusive o Presidente da República e seus familiares, se submetem à Constituição Federal e às leis vigentes”, diz a petição assinada pela líder do PSOL na Câmara, Fernanda Melchionna (RS), e por deputados da bancada. “É essencial assegurar, por todos os meios constitucionais, o livre e harmônico exercício dos poderes constituídos – princípio fundante do Estado brasileiro – garantindo aos Poderes da República atuação livre de qualquer ameaça, especialmente através de esquemas de financiamento, gerenciamento e difusão de notícias falsas que atentam, em última instância, contra a própria democracia”. / COLABORARAM PAULA REVERBEL, PEDRO PRATA, CAIO SARTORI e FELIPE FRAZÃO

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