Extradição de Battisti seria erro, diz historiador

Historiador aponta que é preciso entender o momento de 'polarização política radical' vivido pela Itália

João Paulo Charleaux, de O Estado de S. Paulo,

07 de fevereiro de 2009 | 08h54

Os ministros do Supremo Tribunal Federal importarão uma crise interna da Itália se decidirem, em março, extraditar o extremista italiano Cesare Battisti, contrariando o refúgio concedido a ele em janeiro pelo Ministério da Justiça. A avaliação é do historiador e escritor ítalo-brasileiro José Luiz Del Roio, que vive em Milão há 36 anos e foi senador no governo do ex-premiê Romano Prodi (2006-2008). "Se quiserem entender o que estão discutindo, os brasileiros precisam levar em conta o momento atual da Itália, que é de uma polarização política radical", disse Del Roio ao Estado.   Veja também:  Blog: batalha no STF deve ir para a prorrogação  Embaixador volta ao Brasil após consultas na Itália  TV Estadão: Ideologia não influenciou concessão de refúgio, diz Tarso   Abaixo-assinado a favor do refúgio a Battisti Especialista diz que decisão de Tarso foi 'política'  Leia tudo o que já foi publicado sobre o caso    O extremista foi condenado na Itália à prisão perpétua por quatro homicídios cometidos nos anos 70 e recebeu o estatuto de refugiado político no Brasil no mês passado, o que provocou forte reação do governo do premiê italiano, Silvio Berlusconi. "Battisti é antes de qualquer coisa um grande azarado", disse Del Roio, que, no Brasil, foi membro da Aliança Libertadora Nacional (ALN), de 1967 a 1974 , e na época tinha contato com grupos políticos europeus, mas nunca ouviu falar do grupo de Battisti, o Proletários Armados pelo Comunismo (PAC).   "Battisti fazia parte de um grupo minúsculo e, dentro desse grupo, era uma pessoa insignificante. O azar dele foi ter recebido o estatuto de refugiado justamente quando o governo Berlusconi - o mais à direita desde 1945 e o mais à direita de toda a Europa - decidiu aumentar a ofensiva contra imigrantes, ciganos, pobres e tudo o que tenha tonalidades vermelhas."   Na quinta-feira, Berlusconi deu novos sinais de recrudescimento de sua política conservadora ao aprovar no Parlamento uma medida que autoriza médicos a denunciarem imigrantes ilegais que busquem os hospitais. A nova lei também criou patrulhas civis para fiscalizar a população das periferias. No texto original, o premiê propunha que esses grupos andassem armados.   Em resposta, o principal jurista do processo de combate às máfias italianas na década de 90, o político italiano Antonio Di Pietro, enviou uma carta ao presidente da Itália, Giorgio Napolitano, acusando Berlusconi de "seguir os passos do Partido Nacional-Socialista Alemão dos anos 30", distanciando-se da "democracia fundada no direito".   Caso parecido   Del Roio lembra que outro italiano, Delfo Zorzi, também acusado de crimes políticos no mesmo período, se refugiou no Japão e teve o pedido de extradição negado, sem que isso gerasse uma crise com a Itália. Zorzi foi condenado por um atentado a bomba na Piazza Fontana, em Milão, há mais de 40 anos. Ele fazia parte do grupo de direita Ordem Nova.   "Em circunstâncias normais, as relações entre os países seguem em frente", disse Del Roio. "O problema é que, para Berlusconi, esse caso se converteu num assunto mais político do que jurídico."   Por dois anos, Del Roio foi parlamentar do Conselho Europeu, em Estrasburgo, voltado para as questões de direitos humanos, e do Parlamento da Europa Ocidental, que funciona em Paris e é responsável pelo debate da política de defesa europeia. Ele considera que a moção aprovada anteontem pelo Parlamento Europeu "foi uma típica votação secundária, feita entre amigos".   Del Roio lembra que a moção foi a última a ser votada pelo plenário no dia e contou com a presença de apenas 6% dos 785 parlamentares que compõem o Parlamento. Dos 78 deputados italianos com cadeira na casa, apenas 6 deles estavam presentes. "Se essa votação tem algum valor simbólico eu diria que foi um símbolo do fracasso."

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