Expulsão de Bové divide franceses

A expulsão de José Bové, fundador e principal dirigente da Confederação Camponesa, segundo sindicato agrícola francês, divide o governo social-democrata de Lionel Jospin, com declarações contraditórias de dois de seus ministros. Se em comunicado distribuído simultaneamente no Brasil e na França, o ministro da Economia Solidária, Guy Hascöet, participante do Fórum Social de Porto Alegre, criticou severamente a decisão do governo brasileiro, considerando-a "desproporcional e discriminatória", em Paris, o ministro da Agricultura, Jean Clavany, em declarações a emissora Europa 1, procurou afastar-se do dirigente sindical francês dizendo que "seus atos são de sua própria responsabilidade ou de uma organização francesa da qual não tenho certeza estar satisfeita com todos as suas iniciativas". O ministro da Agricultura observou que Bové é o único responsável por seus atos que "não envolvem os poderes públicos franceses". Ele desmentiu também ser amigo desse dirigente sindical dizendo que vê mais regularmente Luc Guyau, presidente da Federação Nacional dos Sindicatos Agrícolas (FNSEA), principal adversário da Confederação Camponesa.A expulsão de Bové ocorreu num momento delicado, pois hoje serão realizadas as eleições para as Câmaras de Agricultura na França, prevendo-se um importante avanço da Confederação Camponesa na sua disputa com a central sindical majoritária, a FNSA. Glavany fez questão de dissociar a ação de Bové a qualquer tipo de apoio do governo francês, apesar das declarações de seu colega de ministério, para evitar qualquer mal-estar entre Paris e Brasília, no dia seguinte do anúncio da visita do primeiro-ministro Lionel Jospin ao Brasil, em abril.A intervenção do ministro da Agricultura ocorreu logo após a de seu colega Hascöet, representante da ala esquerda do Partido Socialista no governo, na qual não poupa críticas ao governo brasileiro e justifica a iniciativa dos 1.300 membros do Movimento dos Sem Terra destruindo as culturas experimentais de soja e milho transgênicos.Disputa eleitoralAs eleições de hoje para as Câmaras da Agricultura deverão permitir aos meios políticos e agrícolas saber se o sindicato dominante, a FNSEA, poderá manter sua influência diante da ofensiva da Confederação Camponesa. Essas eleições são realizadas a cada seis anos envolvendo 2,8 milhões de eleitores em todo o país. As 94 câmaras departamentais são estabelecimentos públicos administrativos do Estado, sob a tutela do Ministério da Agricultura. Elas controlam um orçamento da ordem de 500 milhões de euros.Desde setembro, os principais líderes, Guyau e Bové, têm percorrido a França. O tema central da campanha é a doença da vaca louca que atinge a Europa, o que tem contribuído para uma boa mobilização de seus partidários que defendem uma concepção diversa da agricultura.Guyau mostra-se como defensor de uma agricultura intensiva. "Se amanhã for necessário produzir menos posso estar de acordo a condição que nos paguem a diferença. Mas, nesse país, todo mundo quer ter segurança quantitativa, preços cada vez mais baixos e melhor qualidade".Quanto a Bové, ele combate a "agricultura industrial e os problemas que ela cria para os agricultores, para a terra e seus recursos naturais". Ele defende pertinência de suas análises citando a doença da vaca louca. Ambos defendem a política de subsídios agrícolas, uma posição que está acima do debate esquerda versus direita no país.

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