Exposição ''inutiliza'' 20 espiões da agência

Escândalos recentes têm revelado identidade do time mais seleto da Abin

Vannildo Mendes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

12 de novembro de 2008 | 00h00

A inutilização de espiões provocada pela revelação de sua identidade em CPIs ou nos rotineiros vazamentos de investigações da Polícia Federal acendeu o sinal vermelho na Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O órgão está fazendo o mapeamento dos danos causados em seus quadros para sensibilizar o governo a aprovar, em regime de urgência, uma lei que proteja o sigilo da identidade dos agentes, com penas para quem revelar os nomes.Só em três grandes investigações recentes - Satiagraha, escândalo dos cartões corporativos e caso dos Correios - pelo menos 20 oficiais e agentes de inteligência, alguns deles com larga experiência de infiltração, tiveram as carreiras prejudicadas pela divulgação de sua identidade. Isso representou um golpe no já defasado quadro da Abin, segundo avalia a direção do órgão.Apesar de interino no cargo, o diretor em exercício da Abin, Wilson Trezza, está promovendo discussões internas para propor uma legislação que proteja os agentes de inteligência. Sua idéia é adequar o Brasil à doutrina mundial em torno das atividades do setor. Na maioria dos países, como nos Estados Unidos, é crime grave a revelação da identidade do agente secreto. Segundo um dirigente do órgão, "inteligência envolve segurança do Estado e é, por natureza, atividade sigilosa".A seu ver, é longo o caminho a percorrer, porque o Brasil não tem tradição de proteger suas informações estratégicas e muito menos seus agentes de inteligência, chamados de "arapongas" e até "bisbilhoteiros".A Abin tem hoje 1.600 funcionários, muitos deles oriundos do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI). Desse total, boa parte está prestes a se aposentar e pouco mais de 600 exercem de fato a atividade. Cerca de 200 profissionais são considerados a elite e é justamente nesse grupo que têm ocorrido as maiores baixas.CARREIRA PREJUDICADANa Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas, acusado de comandar um esquema de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e corrupção, a PF e uma CPI apuraram que 72 funcionários, em 12 Estados, tiveram algum tipo de atuação no caso. Pelo menos sete deles já tiveram os nomes revelados e suas carreiras estariam prejudicadas, independentemente de serem indiciados ou não no inquérito que apura responsabilidades pelo vazamento de dados da operação, comandada pelo delegado Protógenes Queiroz. Na investigação do escândalo dos Correios, embrião do inquérito do mensalão, outros seis agentes de ponta tiveram seu anonimato desmanchado e também estariam prejudicados para infiltrações.Entre todos, a situação mais complicada é a do agente Edgar Lange, o Alemão, ex-diretor da área operacional da Abin, coordenador de toda a operação de infiltração nos Correios. Alemão prestou depoimento três vezes. Para não ficar totalmente inutilizado pela superexposição, ele tingiu o cabelo, operou o nariz, deixou a barba crescer e engordou dez quilos.No caso dos cartões, pelo menos 15 agentes tiveram seus nomes revelados durante os trabalhos da CPI, que investigou irregularidades nos gastos do governo com essa rubrica. Por lei, os gastos da Abin são cifrados. A publicação no Diário Oficial da União é feita por setor e o agente é identificado por um codinome fictício. Mesmo assim, esses agentes foram nominados como ordenadores de despesas junto ao Tribunal de Contas da União (TCU).

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