Expedição da Funai inicia entrada na selva

Frente Etnoambiental do Vale do Javari inicia incursão de pelo menos 20 dias na mata

Roberto Almeida, enviado especial à Amazônia ,

14 de dezembro de 2009 | 17h57

Depois de 11 dias navegando pelos rios Solimões, Jandiatuba, Jutaí e Boia, no sudoeste do Amazonas, a expedição da Frente Etnoambiental do Vale do Javari, realizada pela Funai em parceria com o Centro de Trabalho Indigenista, chegou neste sábado (12) ao igarapé que dará acesso ponto de entrada na selva para constatar as referências de índios isolados, não-contactados. A expedição agora será feita em voadeiras, em trajeto de pelo menos dois dias, e depois a pé, pela mata.

O grupo de 11 pessoas, liderado pelo indigenista Rieli Franciscato, fará uma incursão de pelo menos 20 dias até uma grande clareira encontrada em sobrevoo da Funai em julho deste ano. A área, em formato de perfeita circunferência, é o mais forte indício de presença indígena na região. Não há sinais de maloca ou de roça, mas podem haver vestígios de uma tribo desconhecida. A reportagem do Estado acompanhará todo o trabalho.

 

Equipe comandada pelo indigenista Rieli Franciscato (à dir.). Foto: JF Diório/AE

Se encontrados os vestígios, eles devem ser catalogados e fotografados pelos membros da expedição e podem servir como base para uma futura demarcação de terra indígena, a fim de proteger os índios da aproximação de garimpeiros e madeireiros. O garimpo está presente no rio Boia, como mostrou reportagem publicada na sexta (11).

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Durante a expedição, há a possibilidade de contato direto com a tribo desconhecida. Se ocorrer a ordem é recuar a expedição até o barco, que ficará estacionado com dois tripulantes de prontidão, para prevenir a transmissão de doenças. Uma simples gripe pode acabar por dizimá-los.

Para traçar o rumo e a localização da clareira com exatidão, a equipe também levará equipamento específico de localização via satélite para mapear o terreno e construir uma cartografia inédita da região.

Esta é a primeira expedição da Funai realizada na área do rio Boia, afluente do rio Jutaí. O barco Kukahã, da Funai, partiu no dia 1º de dezembro de Tabatinga e deve retornar somente no final de janeiro.

Todo o percurso realizado pela Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari até a chegada no rio Boia pode ser visto no blog da expedição, no portal estadao.com.br. Após a entrada na mata, porém, a reportagem ficará sem contato até o retorno ao barco, onde ficará o equipamento de transmissão via satélite. 

INDÍCIOS

Além do sobrevoo da Funai, que constatou a existência da clareira, índios ticunas do rio Jandiatuba, próximos à cidade de São Paulo de Olivença (AM), informaram ter encontrado um “cocho”, ou embarcação produzida a partir de casca de palmeira em um igarapé próximo à região que será expedicionada.

O relato, combinado com dados colhidos pela Funai, sustenta a hipótese de que a tribo desconhecida esteja se aproximando da margem do rio Boia, em movimentação que teria deixado para trás a clareira vista no sobrevoo e partido para outro terreno mais fértil.

ÍNDIOS TERIAM RAPTADO MULHER DE ALDEIA

Índios de uma aldeia katukina à margem do rio Jutaí disseram nunca ter visto “parente bravo” na área do rio Boia, mas avisaram a expedição da existência de outra aldeia desconhecida, na região do rio Biá, também afluente do rio Jutaí.

De acordo com os katukinas, um grupo de índios nus, pintados de urucum, teria “roubado” uma mulher de uma de suas aldeias. Ela, em seguida, teria sido recuperada sem ferimentos. A ação da suposta tribo não-contactada, segundo o indigenista Rieli Franciscato, é “fantasiosa”, mas pode ser avaliada em um segundo momento da expedição.

A Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari estuda a possibilidade de realizar uma incursão também na área do rio Biá para confirmar os relatos.

Segundo os katukinas, o “rapto” é recente, de agosto deste ano. Apenas um homem teria ido até a aldeia desconhecida para trazer de volta a mulher e não encontrou resistência.

Índios que acompanham a expedição afirmam que os não-contactados podem ter sentido medo da presença do “parente”, que poderia jogar feitiço na tribo.

NÚMEROS DA EXPEDIÇÃO

link A expedição tem 12 integrantes

link A entrada na mata tem duração mínima de 20 dias

CRONOLOGIA DA EXPEDIÇÃO

link 1º de dezembro

A expedição da Frente Etnoambiental do Vale do Javari deixa Tabatinga

link 2 a 5 de dezembro

Parte da equipe visita base da Funai no rio Jandiatuba

link 7 de dezembro

Barco chega a Jutaí para reabastecimento

link 10 de dezembro

Barco chega ao rio Boia

12 de dezembro

Início da expedição por terra

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