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Exorcismo político

Bolsonaro terá de fazer outro ‘mea-culpa’: o de que a política não é coisa do diabo

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 05h00

Mais que o gesto de ir pessoalmente à Câmara para levar a reforma da Previdência ou o pronunciamento que fez em rede de rádio e TV para defender a proposta, Jair Bolsonaro acertou ao admitir, sem meias-palavras, que errou quando votou contra a reforma da Previdência no passado.

A frase tem o mesmo peso e sentido parecido a uma declaração de Lula, coincidentemente também depois de dois meses de mandato, em 2003, quando disse que “quando a gente é de oposição, pode fazer bravata porque não vai ter de executar nada mesmo; agora, quando você é governo, tem de fazer, tem que ser responsável, e aí não cabe a bravata”.

É disso que se trata. Vale para a responsabilidade fiscal e para a política, o próximo assunto a que Bolsonaro terá de se dedicar para ter sucesso na reforma, e no qual também não escapará, cedo ou tarde, da necessidade de dar um cavalo de pau no que vendeu publicamente.

Casos como o laranjal do PSL, o gabinete-rachadinha de Flávio Bolsonaro, a interferência da família no mandato e a demissão escandalosa de um ministro palaciano com 50 dias de governo já trataram de tisnar aquela aura de “diferentões” da política com que Bolsonaro e companhia venceram as eleições. Nada mais velha política do que esse coquetel servido graciosamente pelo entorno do presidente, sem que a oposição tivesse movido um dedo mindinho sequer.

Ainda assim, a narrativa oficial insiste na lenga-lenga de que o toma lá, dá cá acabou, partidos perderam espaço e nomeações e emendas não serão mais usadas como combustível para votações no Legislativo. O erro desse discurso é condenar essas práticas à vala comum da fisiologia e da corrupção, como se, feitas com transparência e racionalidade, não fossem legítimas.

O Orçamento é o instrumento pelo qual as políticas públicas são executadas. As emendas servem para que deputados e senadores alterem prioridades dentro de suas atribuições constitucionais. Estabelecer um sistema de liberação dessas emendas que permita que os parlamentares prestem contas às suas bases – desde que isso não seja usado como forma de chantagem – é do jogo político e não deveria ser, de cara, condenado. Sob pena de gerar escândalo dos eleitores quando enfim tiver de ser feito. Como terá.

É obtuso insistir no blá-blá-blá do purismo político quando se olha para a planilha de votos da base governista e se vê apenas um papel em branco. Partidos do Centrão já começam a apontar defeitos na reforma enviada à Câmara – uma peça coerente, ambiciosa e que ataca privilégios, de fato – não porque estejam de fato preocupados, mas porque querem ser chamados a conversar.

Bolsonaro tem como usar o capital político de início de mandato para entabular uma conversa com esses partidos em termos novos, mas sem estigmatizá-los de saída, o que só fará com que criem mais dificuldades.

Precisará, para isso, de um time de articulação com mais jogo de cintura. O general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que tem a chave do cofre das emendas, terá de entender que a política não é algo tão vil quanto ele faz parecer nas declarações e na cara sisuda que intimida deputados e senadores. O mais natural é que seja do titular da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a missão de negociar com o Congresso, que conhece bem. Para isso, terá de ganhar alguma autonomia em relação a Bolsonaro e se afinar com o correligionário Rodrigo Maia (DEM-RJ), até aqui o mais consciente entre os atores da reforma das dificuldades imensas que haverá pela frente. E da necessidade de exorcizar a política, tão demonizada desde que a Lava Jato foi alçada à categoria política e Bolsonaro, à condição de mito.

Que o presidente tenha começado a pedir desculpas é um bom caminho para iniciar o ritual.

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