Êxito do ministro não surpreende, dizem colegas

Atuação no caso foi acompanhada com atenção por procuradores e na Uerj, onde trabalhou

Entrevista com

Alexandre Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

O desempenho do ministro Joaquim Barbosa, na defesa da abertura do processo contra os 40 envolvidos no escândalo do mensalão, no Supremo Tribunal Federal (STF), foi acompanhado com especial atenção nos corredores da Procuradoria Regional da República e da Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), os dois últimos endereços profissionais dele antes da chegada à mais alta corte do País. O êxito do ministro não surpreendeu os ex-colegas.Além dos gols marcados no futebol dos procuradores, Barbosa já tinha deixado no Rio a memória do rigor técnico, da clareza e da impessoalidade que marcaram seu relatório. ''''Ele agiu como o conhecemos: sereno, porém rígido quando preciso. Foi incisivo sem ser descortês'''', avaliou o procurador-chefe federal da 2° Região, Celso de Albuquerque Silva, que ocupou a vaga deixada por Barbosa no Rio.A performance de Barbosa foi comentada pelos procuradores do Rio no correio eletrônico interno - entre uma espiada e outra na TV Justiça. No entanto, diferentemente da correspondência virtual entre os ministros Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski durante o julgamento, os procuradores debateram sobretudo a objetividade do relatório.''''Joaquim é um professor. Encadeou de forma didática o relatório, foi técnico e correto'''', elogiou o procurador Roberto Ferreira, que era procurador-chefe na época da indicação de Barbosa para o STF.Reservado, sério e dono de um semblante fechado, que polemizava muitas vezes com colegas e servidores: essa é a descrição mais comum de Barbosa em relação à década que passou no Rio, até ingressar no STF em 2003. Mas o jeito discreto não impedia que o então procurador da área de tutela coletiva brindasse os colegas com brilhantes jogadas nas ''''peladas'''' de procuradores em clubes da Barra da Tijuca.''''Bate um bolão! Se quisesse, poderia ter sido jogador profissional'''', disse o procurador Rogério Nascimento. ''''Tem boa canhota'''', confirmou Ferreira.''''Joaquim não é mal-humorado. Tem uma ironia meio britânica, uma postura blasé. Quem conhece menos pode ter a impressão de arrogância, mas acho que não é nada além do que o reflexo das dificuldades naturais que uma pessoa negra enfrenta'''', disse Nascimento.SALA DE AULAA origem humilde em Paracatu (MG) e o esforço para viabilizar seus estudos é um tema do qual Barbosa nunca fugiu. Ele recorria à sua história para motivar alunos na Uerj, a primeira universidade do País a adotar políticas afirmativas, tema que estudou.Luiz Roberto Barroso, professor de Direito Constitucional que foi colega de departamento de Barbosa até quando ele se licenciou do posto de professor-adjunto de Direito Administrativo e Constitucional, conheceu o ministro na França, onde fizeram o doutorado, mas nunca partilhou de sua intimidade. Para o professor, o recato ajudou Barbosa a relatar um caso tão polêmico sem se deixar influenciar. ''''Ele se preparou muito bem'''', disse Barroso.O diretor da Faculdade de Direito, Maurício Mota, também acha que foi da sala de aula que o ministro extraiu o modelo de argumentação: ''''Suas aulas eram procuradas por sua exposição sempre clara, sem o abuso do juridiquês. É uma característica dele, que trouxe de sua experiência nos Estados Unidos.''''

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