Exército se opõe a ação em Roraima

Militares não participam da retirada de não-índios, apesar de mais bem treinados e de conhecerem melhor a região

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

05 de abril de 2008 | 00h00

A operação de retirada dos fazendeiros que resistem na terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, está deixando exposto o mal-estar entre setores das Forças Armadas e governo federal em torno daquela questão. O sinal mais evidente disso é a ausência do Exército na operação.Até agora a Polícia Federal enfrenta sozinha os fazendeiros, que deixaram clara sua intenção de resistir com o emprego de táticas de guerrilha. Na primeira semana da operação eles se empenharam em impedir o avanço da PF no território que reivindicam: queimaram e bloquearam pontes e tentaram impedir o tráfego na principal rodovia da região.A participação do Exército - que tem pelotões de fronteira espalhados pela região - poderia facilitar e encurtar a chamada Operação Upatakon 3. Além da vantagem numérica e do conhecimento da região, o Exército conta com homens treinados no combate a guerrilhas. Os agentes da PF, arregimentados em outros Estados, nem sequer conhecem a região.Indagada sobre a ausência do Exército na operação, a assessoria do Ministério da Justiça - ao qual se subordinam a PF e a Fundação Nacional do Índio (Funai) - respondeu que seria mais adequado perguntar ao Exército. Por sua vez, a assessoria do Exército respondeu que entre as missões constitucionais da instituição, " a defesa da Pátria é a principal"; que tropas podem participar de operações internas, desde que seja observado o regulamento jurídico sobre o assunto: e, por fim, que a "a operação está na esfera do Ministério da Justiça".Por questões disciplinares, militares da ativa não comentam o caso. Mas em clubes e associações de oficiais da reserva, assim como em seus blogs na internet, o assunto ferve. Em entrevista ao Estado, o general da reserva Durval de Andrade Néry, da direção do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos (Cebres), que congrega no Rio os Clubes Naval, Militar e da Aeronáutica, disse enfaticamente que o Exército não participa porque não concorda com a retirada dos "brasileiros não-indígenas" da reserva.Apesar de convidados, os militares não participaram das reuniões de preparativos da operação. Mas sabiam que seria iniciada dia 28. E por isso o Cebres realizou, na sede do Clube da Aeronáutica, nos dias 26, 27 e 28, o seminário Amazônia, Cobiçada e Ameaçada - com um time de palestrantes contrários à demarcação. "Fizemos isso exatamente para mostrar que o Exército não apóia essa operação", assegurou Néry.O arrozeiro Paulo César Quartiero, organizador da resistência à desintrusão, esteve no seminário. Foi recebido com elogios de Gélio Fregapani, outro general da reserva.Em maio de 2005, um mês após o presidente Lula ter homologado a terra indígena, Fregapani tornou público um relatório sobre o assunto, produzido por ele para o Grupo de Trabalho da Amazônia - colegiado informal constituído por setores de inteligência das Forças Armadas e da Polícia Federal. Segundo o texto, reservas indígenas têm sido criadas na Amazônia sob pressão de ONGs internacionais - que estariam na região a serviço de potências estrangeiras, preocupadas com questões geopolíticas e interessadas nas suas riquezas, especialmente minérios.Essa questão da geopolítica voltou a ganhar corpo entre os militares com os recentes atritos entre Colômbia e Venezuela - esta última situada na linha norte da reserva.Na época do relatório, Fregapani chefiava o escritório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em Roraima. Foi afastado, mas ainda é lembrado por pessoas da região.É o caso de um sujeito que se apresenta como ex-militar e se instalou semanas atrás na sede da Fazenda Destino, uma das áreas da reserva onde Quartiero mantém seus vastos e produtivos arrozais. Apresentando-se apenas como Álvaro, ele gosta de contar que esteve em Angola nos anos 80, integrando a Força de Paz da ONU; e de elogiar Fregapani. Indagado sobre o que faz na fazenda, disse: "Vou escrever um livro sobre a resistência."Em Boa Vista, num modesto casarão do Bairro São Vicente, sede do Conselho Indigenista de Roraima, seu coordenador-geral, o macuxi Dionito de Souza, lembrou que o Exército participou das primeiras etapas da Upatakon. E reclamou contra seu afastamento: "Por que isso? Estão do lado dos arrozeiros e contra os índios?"Ele também reclamou do general Eliéser Monteiro, comandante da 1.ª Brigada de Infantaria de Selva, responsável pelo controle das fronteiras de Roraima: "O general disse que são os arrozeiros que vivificam essa faixa de fronteira. E nós, índios? Somos desnecessários?"Foi provavelmente por causa desses arranhões que os índios impuseram ao general, no início de março, uma cena constrangedora. Foi durante a visita do ministro Mangabeira Unger (Políticas de Longo Prazo) à região. Os líderes indígenas da Raposa realizavam uma conferência e convidaram o ministro, que antes de assumir havia dito que o governo Lula é "o mais corrupto da história". Ele estava prestes a embarcar num helicóptero do Exército, ao lado do general, quando chegou a informação de que o convite era para o ministro. Só.Monteiro deixou o local sem dizer nada. Em fevereiro, ao levar um grupo de parlamentares à reserva dos ianomâmis, ele ouviu que não deveria ir à comunidade sem ser convidado. Respondeu que, legalmente, não precisa de autorização nem da Funai para adentrar terra indígena. E foi embora.

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