Exército recorre aos 'vaqueanos' para terceirizar a batalha

Grupo de civis ligados aos coronéis da mesma região que os rebeldes auxiliou os militares

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 18h00

As sucessivas derrotas militares nos dois primeiros anos de combates levaram o Exército a terceirizar a guerra. Coronéis foram contatados para formar grupos de vaqueanos, como eram conhecidos os guias e mateiros, que além da função de identificar caminhos e pegadas de rebeldes, agiam como pistoleiros e degoladores. Muitos deles trabalham nas fazendas como capatazes e jagunços. Uma parte tinha atuado na Revolução Federalista de 1893. Foi naquele movimento que aprenderam a arte macabra da degola. O nome do coronel Fabrício Vieira, líder de um grupo de vaqueanos, aparece com destaque nos documentos do Exército. Tratava-se de um fazendeiro disposto a conquistar a confiança do Exército e do governo para aumentar suas terras e plantações de erva mate. A lista completa com os nomes dos "vaqueanos" está no site do Estadão na internet.

 

Havia diferenças marcantes nos perfis dos rebeldes e dos vaqueanos. Embora fossem homens da mesma região e de origens étnicas parecidas, eles se diferenciavam em questões de família. As diferenças se acentuavam no culto e no ódio aos coronéis. Os vaqueanos eram ligados aos chefes políticos, matava mulher e criança se recebesse ordens. Já o jagunço rebelde era um típico respeitador das convenções familiares.

 

 

Foi a partir do momento em que Adeodato começou a empregar práticas de degola de companheiros e "desrespeitar" mulheres que seu carisma e sua influência perderam força nos redutos. "O nosso caboclo aceitava matar, mas com ele não tinha desrespeitos", diz o pesquisador Aldair Goetten.

Em telegrama ao coronel Manoel Onofre, possivelmente escrito em fins de dezembro de 1914, o capitão Leopoldo Itacoatiara de Senna admite que as tropas militares não conseguiam se movimentar nos campos de araucárias. "Como se sabe, n´estas paragens, o Exercito difficilmente se moverá sem o auxilio dos sertanejos", escreveu Senna.

 

Ao longo dos primeiros meses de 1915, os vaqueanos já estavam integrados às tropas militares. Relatório escrito pelo tenente-coronel Antonio Pereira Leitão da Silva, em Lages, no dia 4 de maio, destaca que a tropa civil era "o que precisava". "Organizou o major Volgas Neves quatro piquetes civis compostos quase na sua totalidade dessa gente que emigrada à força de seus lares e lutando com difficuldades de vida no centro da cidade, nutriam por isso forte odiosidade aos nossos inimigos. A demais, estes novos alliados conhecedores exímios do terreno, podendo verificar até os mais escaços acoitos eram justamente o que se precisava", registra Silva. "Coube aos piquetes civis o êxito de num tiroteio com o cabecilha Castelhano e seu grupo, nas margens do Rio Pelotas, liquidarem tão temerário bandido, dando um grande passo na senda do fim. A esses também devemos o valoroso commetimento quando prenderam após perseguição o prestigioso fanático Ramiro Andrade."

 

Louvor aos vaqueanos. Num trecho insólito de seu relatório de 20 de fevereiro, o comandante da Coluna Norte, Onofre Ribeiro, agradece aos "bandos" de civis que ajudavam o Exército. "Os mais francos louvores aos civis Salvador Pinheiro, Pedro Ruivo e Theophilo Beck, respectivamente representantes dos bandos do coronel Fabrício, do Ruivo e do Leocádio Pacheco. Os arrojados vaqueanos Pedro Chaidt e Nicolau Fernandes foram seus auxiliares de primeira ordem."

 

O comandante pede atenção especial a um dos vaqueanos, que teve o braço amputado. "Permita VEx. que solicitae a vossa consideração e recomendação das altas autoridades para o vaqueano Antonio Fortes, que sua bravura o levou a receber grave ferimento do qual resultou, imperiosamente, a amputação do braço direito, tornando incapaz de prover os meios de subsistência com toda a pugancia de sua invejável robuste e juventude", pediu. "Tivemos dois mortos: Manoel Cabral e Aric Opstal, aquele do bando do Coronel Fabrício e esse de Leocadio Pacheco."

 

Ele faz uma lista dos vaqueanos feridos - Francisco Antunes de Oliveira Netto, Manoel Francisco, João Caetano, Marcelino Verges, Antonio Miguel, Emilio Alves, Antonio Caetano da Silva, Flaviano Moreira, Joaquim Thomaz e José Valentim (bando de Fabrício). João Farias e Antonio Fortes (Leocadio Pacheco). Por fim, Onofre Ribeiro destaca que o coronel Fabrício matou dez "fanáticos" na Serra da Casemira.

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