Gabriela Biló / Estadão
Gabriela Biló / Estadão

Exército optou pelo risco de futuros atos de indisciplina; leia análise

Só podemos acreditar que, ao não punir Pazuello, o Alto Comando preferiu o risco a uma crise institucional, da qual o resultado ninguém tem certeza qual seria

Gunther Rudzit*, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2021 | 18h24

A decisão do Alto Comando do Exército em não punir o general Eduardo Pazuello abre um sério precedente e expõe o racha entre a alta oficialidade e o presidente Jair Bolsonaro.

O que está claro é que a relação entre o presidente e os três Altos Comandos já está muito esgarçada desde a substituição do ministro da Defesa e dos três comandantes em março, mesmo eles não tendo realizado nenhum ato que os desabonasse como comandantes.

O atual comandante, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, não era o preferido do presidente. Quando chefiava o Departamento-Geral do Pessoal, ele deu entrevista afirmando que o Exército registrava taxa de mortalidade muito baixa por seguir a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de distanciamento social. Atitude radicalmente oposta à defendida por Bolsonaro.

Assim, no momento da crise na troca dos comandantes, a saída foi dada pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão, ou seja, a lógica da hierarquia, que, no caso, era a da antiguidade e, assim, o general Paulo Sérgio não seria superior ao novo ministro da Defesa. Mas o que se percebeu desde então foi o desconforto na relação entre presidente e comandante.

A crise provocada pelo general Pazuello ao subir no caminhão de som ao lado do presidente Bolsonaro no Rio de Janeiro já abriu precedentes para outros militares também se manifestarem em trajes civis. Em 14 de maio, um 3º sargento participou de uma live do deputado Major Vítor Hugo (PSL-GO) e reclamou da situação financeira que os oficiais de baixa patente estão vivendo após a aprovação da reforma da previdência militar.

Se o sargento vier a sofrer um procedimento disciplinar, poderá alegar que também não participou de ato político e que, portanto, não poderá ser punido.

A questão que fica é por que o Alto Comando resolveu arriscar perder o controle da tropa ao abrir a possibilidade de cada vez mais militares participarem de atividades políticas, uma vez que os dois casos se caracterizam como falta disciplinar.

Só podemos acreditar que o Alto Comando do Exército preferiu o risco de ter que enfrentar possíveis atos futuros de indisciplina a uma crise institucional, da qual o resultado ninguém tem certeza qual seria.

*É professor de Relações Internacionais da ESPM, especialista em Segurança Nacional, e ex-assessor do ministro da Defesa (2001-02)

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