Exército não tem como localizar mortos, diz Quintão

O ministro da Defesa, Geraldo Quintão, afirmou, durante debate de mais de sete hora no Congresso, que o Exército não tem condições de informar onde estão os corpos dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, ocorrida entre 1972 e 1974. "Não se pode exigir das Forças Armadas atuais os arquivos sobre onde os jovens foram enterrados", declarou o ministro, acentuando que "naquela época a legislação permitia que os documentos fossem destruídos". Quintão ressalvou, no entanto, que também não pode se responsabilizar se alguém tiver algum arquivo pessoal guardado sobre esse assunto.O ministro fez questão, ainda, de defender o Exército no acompanhamento, por meio de seus órgãos de inteligência, de assuntos que possam afetá-lo, citando como exemplo algumas afirmações de líderes do MST que, na sua avaliação, pregam a revolução. Para mostrar a sua disposição em colaborar com as investigações lideradas pelo deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), o ministro Quintão ofereceu aos integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Câmara helicópteros da Força Aérea para que sobrevoem a região do Araguaia em busca da localização dos corpos. Segundo o ministro, os deputados podem, inclusive, fazer a busca em companhia do coronel da Aeronáutica que informou aos parlamentares saber onde esses corpos poderiam estar. "É o mínimo que posso fazer", declarou Quintão, que insistiu por várias vezes que os comandantes das Forças Armadas lhe informaram que não há registros sobre onde corpos foram enterrados. "Eles são homens sérios, são todos democratas e eu acredito neles." Imediatamente, os deputados Greenhalgh, e o presidente da comissão de Direitos Humanos, Nelson Pellegrino (PT-BA) encaminharam pedido ao ministro pedindo a liberação de um helicóptero, por sete dias, a fim de que os parlamentares possam realizar diligências de reconhecimento na Serra das Andorinhas. Esta foi a primeira vez que o ministro Quintão se pronunciou oficialmente sobre a Guerrilha do Araguaia. Ao lado dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, o ministro disse que "está se abrindo uma porta para se chegar a uma solução neste caso". "É uma pena que o Brasil tenha de conviver com desaparecidos, pois minha visão cristã e humanista não admite isso", desabafou ele, depois de lembrar que a Argentina chora o sumiço de 10 mil a 15 mil. "Não é a quantidade que agrava. Se tivéssemos um número desse seria trágico, mas o número de 50 também é muito grave e não diminui o problema." Na sua exposição, Geraldo Quintão afirmou que o Brasil foi vítima da bipolaridade imposta pela guerra fria e lembrou que, como conseqüência disso, havia setores no Exército que se relacionavam fora da cadeia de comando. Quintão disse que o ex-ministro do Exército Zenildo Lucena acabou com isso, e que esse mesmo general assumiu a necessidade de se criar uma Escola de Inteligência, para manter a força informada, mas com "aperfeiçoamento de procedimentos e nova mentalidade". O ministro revelou também que aprovou as diretrizes que regem hoje as atividades de inteligência, sem ofensa ao direito. "Não existe mais doutrina de segurança nacional", avisou o ministro. Ele justificou que os termos existentes nas cartilhas do Exército apreendidas pelos procuradores, na casa que era ocupada pela Força terrestre, e que tratam o Movimento dos Trabalhadores sem Terra como "força adversa". "O Exército usa isso didaticamente ", explicou, ao comentar que este pode ser "um termo que surpreende os civis, mas que é comum entre os militares". Informou ainda algumas alas do MST estão "pregando a revolução e a ruptura da ordem". E indagou: "As Forças Armadas não têm de estar atentas a isso?" O ministro da Defesa assegurou que "não há no Exército mais ações contra pessoas como se fazia antes, e não há mais preocupação com guerra interna". Na opinião do ministro, "se houve algum abuso neste caso, tenho certeza de que eventuais desvios estão sendo corrigidos". E completou: "fico inteiramente solidário ao Exército". Quintão aproveitou para criticar a ação dos procuradores que entraram na casa do Exército em Marabá, há um mês, retirando de lá não só documentos referentes ao Araguaia, mas outros sem qualquer relação com o fato. Condenou ainda a ação do juiz que deu permissão para a entrada na casa, alegando que ele extrapolou suas funções.

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