Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Exército faz estudo sobre retomada do País após a crise da covid-19

Documento do Centro de Estudos Estratégicos do Estado-Maior analisa hipóteses para o País deixar isolamento horizontal; diante da repercussão, instituição o retirou do ar

Marcelo Godoy e Ricardo Galhardo, São Paulo

06 de abril de 2020 | 08h11

Testar em massa os brasileiros, agir rapidamente para isolar novos infectados e tentar manter o isolamento dos grupos de risco são as estratégias defendidas pelo Centro de Estudos Estratégicos do Exército (CEEEx) para o momento em que o País decidir pela retomada das atividades econômicas. O estudo foi publicado na quinta-feira pelo CEEEx, um órgão do Estado-Maior do Exército.

O estudo feito pelo CEEEx é um rotina do órgão. Assim como o Observatório da Praia Vermelha, o centro tem desenvolvido cenários sobre a evolução da crise da covid-19. Após a sua publicação, o documento acabou sendo interpretado como mais uma manifestação técnica no governo que se opõe à visão do presidente Jair Bolsonaro de lidar politicamente com a crise, o que o Exército nega. Diante da repercussão, o Exército decidiu retirar o conteúdo do ar para evitar polêmicas.

O documento estabelece dois caminhos para a abertura: o primeiro deles é a transição direta do isolamento horizontal - atualmente adotado pela maioria dos Estados brasileiros com maior ou menor grau. Essa transição é comparada pelos militares com a estratégia usada em Taiwan, Cingapura e Coreia do Sul. Ela se baseia na adoção de testes em massa, no isolamento rápidos dos infectados e na comunicação imediata dos casos.

O segundo caminho identificado pelos CEEEX foi chamado pelos responsáveis pelo estudo de "estratégia de sequenciamento ou mista". Nela, o País alternaria quinzenas de isolamento horizontal com o vertical em razão do tempo necessário de quarentena para o coronavírus (14 dias). Haveria revezamento de atividades permitidas com dias e horários pré-determinados e limite para a presença de pessoas em lojas. Haveria ainda a adoção de distância obrigatória entre as pessoas e de limites no transporte público, além de serem mantidas as proibições de aglomerações.

Por fim, os militares reconhecem que a situação brasileira tem especificidades que devem ser levadas em conta. A primeira delas é a dimensão do País - muito diferente dos países asiáticos onde as duas estratégias de retorno à normalidade foram aplicadas. Além disso, o estudo chama a atenção para o fato de grandes contingentes populacionais viverem em ambientes precários e superpovoados nas grandes cidades ocupando comunidades carentes. O saneamento básico precário, deficiências no sistema hospitalar  e "características culturais diversas" também devem ser levados em consideração.

"Consenso tem de ser construído de forma urgente. Não parece razoável quebra de governabilidade num momento tão crítico", afirma o estudo. O documento ainda diz que o país deve ter "vontade de mobilizar todos os recursos da nação". "Fica claro que o objetivo principal será o de proteger vidas. Mas isso não pode ser atingido sem os meios necessários. Para isso o custo financeiro será alto, como em toda a guerra e, portanto, não poderemos desperdiçar recursos, sejam eles de pessoal, de material, financeiros, de infraestrutura ou quaisquer outros."

O documento do Exército chama a atenção ainda para o papel que os municípios devem desempenhar na crise em um país com as dimensões do Brasil. Pois mesmo dentro de Estados existem realidades e desafios completamente diversas entre as cidades. O estudo também aponta que as pesquisas sobre medicamentos e vacinas ainda são incipientes. Por isso, reconhece que o isolamento horizontal, por ora adotado em regiões com maior número de casos, aparentemente contribuiu para reduzir a curva de contágio do vírus. Os militares ainda alertam para um possível agravamento do quadro da doença quando o Brasil entrar no inverno, principalmente, na região Sul do País.

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