Exército deve dar relatos do Araguaia, diz membro de comissão

Augustino Veit acredita que a falta desses relatos oficiais torna impossível 'contar a história' da repressão

Agência Brasil,

24 de junho de 2009 | 18h22

A falta dos relatos oficiais do Exército sobre a Guerrilha do Araguaia faz com que seja impossível "contar a história" da repressão à guerrilha que se travou no interior do Brasil nos anos mais duros do período ditatorial. A queixa é de Augustino Veit, membro da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, criada em 1995, com o objetivo de buscar esclarecer o que ocorreu com cada ativista político perseguido pelo regime ditatorial.

 

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"O Exército tem que dar conta dos relatórios que foram produzidos. Se tem uma coisa que é milenar nas organizações militares é o formalismo. Nada se faz sem que seja registrado. Esses relatos existem e devem se tornar públicos. Se sumiram, se foram queimados, o Exército tem a obrigação de apurar os responsáveis por isso", considera.

 

Veit lamenta ainda a forma de acesso aos documentos que foram transferidos, por determinação do governo, para o Arquivo Nacional. Segundo ele, a proibição de acesso às informações sobre terceiros acaba por impedir a identificação de todas as pessoas que lutaram e foram vítimas da repressão no Araguaia. Estão no Arquivo Nacional documentos da época produzidos pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que inclui os relatórios do antigo Sistema Nacional de Informação (SNI). Essa documentação, referente ao período de 1964 a 1982, está disponível para consulta. No entanto, cada pessoa só pode obter informações sobre ela própria.

 

"A transferência para o Arquivo Nacional deu a impressão de que a abertura foi feita. Mas isso não é verdade. Eu posso requerer informações a meu respeito. Você pode adquirir informações a seu respeito. Agora eu não posso ter acesso à história daqueles que desapareceram no Araguaia. Tenho um direito violado quando me é vedado acesso a uma documentação que deveria estar aberta a todos os cidadãos brasileiros. Todo e qualquer historiador, jornalista e qualquer cidadão brasileiro que queira pesquisar o que ocorreu deveria ter acesso aos documentos na íntegra", ressaltou.

 

Ao fornecer os documentos solicitados, os nomes de terceiros são omitidos por uma tarja preta. "Assim fica difícil para identificar quantos passaram pelo Araguaia, quem passou pelo Araguaia, quem ficou lá, quem foi morto, torturado", reclamou Veit.

 

"Ainda há muita obscuridade. Enquanto o governo não tomar a decisão política de efetivamente mandar abrir todos os arquivos que existem, seja dentro do Exército, seja nos órgãos de informações, a história verdadeira não será contada. Eventualmente, a história do Araguaia virá à tona, quando alguém por interesse pessoal resolve divulgar o que tem, como é o caso do Curió (Sebastião Curió Rodrigues de Moura, oficial da reserva que recentemente repassou ao jornal O Estado de São Paulo registros pessoais sobre a guerrilha). Essa documentação está em mãos indevidas. Essa documentação deveria estar no Arquivo Público, aberta a todos nós, brasileiros, e especialmente às pessoas que têm familiares desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. Enquanto isso não acontecer, estaremos vivendo na obscuridade", considerou.

 

Em maio desse ano, nove livros com atas de reuniões do extinto Conselho de Segurança Nacional (CSN), de 1935 a 1988, foram também transferidos para o Arquivo Nacional. Das três mil páginas, 416 trechos foram tarjados na versão digital conforme recomendação da comissão responsável pelo acervo.

 

O ministro-chefe do GSI, Jorge Armando Félix, justificou que a maior parte das expressões tarjadas são "jocosas" em relação a pessoas, instituições e países e poderiam provocar constrangimentos ou incidentes diplomáticos desnecessários. Ao oficializar a remessa dos documentos, Félix considerou que não fazia sentido a liberação na íntegra e alegou que a medida tem a intenção de "proteger o país".

 

Advogado, atuante na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Veit já foi presidente da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Ele critica o tratamento dado à questão e a alegação de Félix. "Isso não faz sentido diante da dor de tantas famílias que não tiveram a oportunidade de enterrar seus mortos", destacou.

 

Veit ressaltou que sem abertura total dos arquivos será uma "farsa" a operação capitaneada pelo Ministério da Defesa com o objetivo de localizar e identificar ossadas, restos mortais ou algum registro de combatentes e camponeses mortos na guerrilha.

 

"Sem a abertura dessa documentação, a operação que está sendo levada a efeito pelo Ministério da Defesa também vai se constituir em uma farsa. Sem a abertura dessa documentação não se chegará à verdade real mais próxima. Não dá para trabalhar somente com depoimentos. É preciso analisar os documentos, os mapas, as estratégias traçadas na época da guerrilha. Sem isso, não vamos chegar à versão oficial do que ocorreu", afirmou.

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