Exército confirma 1° militar contaminado por HIV no Haiti

Diagnóstico foi dado em Brasília após retorno de capitão-médico da missão de paz das Nações Unidas

Tahiane Stochero, do estadao.com.br,

17 de julho de 2007 | 06h16

O Exército confirmou com exclusividade ao estadao.com.br o primeiro caso de um militar brasileiro que retornou da missão de paz das Nações Unidas no Haiti contaminado por HIV, o vírus que causa a Aids. O assunto vem sendo tratado como altamente sigiloso e com muita reserva dentro das Forças Armadas.Veja também: Acompanhe uma patrulha na região mais violenta do HaitiEspecial: A missão brasileira no HaitiTrata-se de um oficial, um capitão-médico, que se encontra atualmente realizando exames que irão avaliar sua permanência no Exército, podendo ir para a reserva ou ser reformado. O Haiti é o país mais pobre das Américas e o com maior número de aidéticos fora da África, segundo a ONU: cerca de 6% da população está infectada com HIV ou tem Aids. O diagnóstico foi dado pela Divisão de Missão de Paz do Comando de Operações Terrestres (Coter), em Brasília, em um período de quatro dias em que o militar ficou isolado após o retorno da missão no Haiti, em 19 de junho. Nesta fase, denominada pelo Exército como "desmobilização", realizam-se exames de saúde, psicológicos e se prepara a reinserção dos militares na sociedade brasileira. Não foi divulgado em que circunstâncias a doença foi contraída. Em Porto Príncipe, o oficial namorou por um tempo uma jovem, cujo exame, porém, deu negativo. O capitão-médico soropositivo fez exames cerca de duas semanas antes de ir para o Haiti, em dezembro de 2006, quando o resultado deu negativo. Alguns militares acreditam que ele possa ter contraído a doença durante o trabalho, ao fazer alguma cirurgia ou ao ter contato com haitianos sem utilizar luvas ou utensílios necessários. Durante os seis meses em que o militar atua na missão de paz, normalmente há total abstinência sexual. O relacionamento íntimo com haitianas é expressamente proibido pelo alto comando da ONU. Brasil também não aconselha esse tipo de contato. No período, há um intervalo de 15 dias para "férias" (leave) e outros dez dias de "arejamento" (quatro períodos de dois dias e meio) que normalmente são acumulados. A maioria dos solteiros prefere viajar para a vizinha República Dominicana ou para os Estados Unidos para gozar o descanso, devido ao alto custo de vir ao Brasil. Apenas alguns militares podem se dar ao luxo de visitar a família no País.  Risco de contágio Em um país de 8,5 milhões de habitantes, cerca de 280 mil pessoas possuem HIV. ONGs internacionais estimam que entre 5% e 7% da população esteja infectada - em 1993, o número chegou a quase 10%. A Aids é a principal causa de mortes no Caribe entre pessoas de 15 e 44 anos, segundo a Unaids, agência das Nações Unidas de combate à doença. Desde que a epidemia começou, nos anos 80, mais de 160 mil crianças ficaram órfãs e cerca de 300 mil haitianos morreram de Aids. Apenas em 2006, cerca de 27 mil pessoas contraíram HIV no Caribe. No entanto, de acordo com a Unaids, o número vem decrescendo no Haiti e tem se mantido estável na República Dominicana devido aos trabalhos de agências para educação sexual e distribuição de preservativos. Riscos em missões de paz Antes de integrar a missão de paz, o militar, que é voluntário, passa por uma seleção e uma preparação, sendo informado dos riscos físicos e mentais que corre. Segundo o Exército, no Haiti eles estão sujeitos aos principais problemas epidemiológicos e doenças endêmicas locais, como febre amarela, poliomielite, febre tifóide, meningite, sarampo, rubéola e hepatite, para as quais são previamente vacinados. Um semestre antes da viagem é iniciada a preparação psicológica, através de entrevistas, testes e acompanhando do militar em exercícios que simulam o ambiente real de combate, buscando informações que dêem indícios de possíveis distúrbios sociais, afetivos ou familiares. O Exército aponta que, entre os fatores de "estresse" típicos da atuação no Haiti , estão o fato de se manter neutro frente a provocações de rivais ou da população local, testemunhar atos violentos e ver cadáveres, risco de morte e ferimento, a miséria da população local e outros eventos que possam deflagrar algum tipo de choque cultural. Brasil tem maior contingente em força de paz no Caribe Atuando há três anos no Haiti, o Brasil possui o maior número de militares na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), cerca de 1.200 homens. Composto por integrantes de 40 países, a missão foi criada pela ONU em fevereiro de 2004, após uma onda de protestos e violência em todo o país provocar a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide.  Desde o início, o Brasil tem liderado operações contra o crime organizado no país caribenho, pacificando os bairros mais violentos da capital, como Bel Air, Cité Militaire e Cité Soleil. Todos os chefes militares da missão foram brasileiros. Essa é a quinta missão da ONU desde 1993 no Haiti.

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