Exército começa a distribuir água no Nordeste

O Exército começa hoje a distribuição de água, com carros-pipa, nos 316 municípios do semi-árido em estado de calamidade pública por causa da seca. A distribuição das cestas básicas - por enquanto a cargo dos Estados - poderá vir a ser feita pelo Exército. A informação foi dada ontem pelo ministro do Desenvolvimento Agrário e coordenador da Câmara Setorial Extraordinária de Convívio com o Semi-Árido, Raul Jungmann.O único impedimento para o Exército ficar com a responsabilidade da entrega das cestas básicas é financeiro, afirmou. "O trabalho do Exército é eficiente, mas caro, representando de 30% a 40% do valor total do contrato", disse. Jungmann deu entrevista no início da noite, depois de ter se reunido com representantes de movimentos sociais ligados à terra. TerraRepresentantes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetape), Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) falou da disposição do governo federal de mudar o modelo de enfrentamento das secas, que deixaria de ser emergencial, para contribuir com o fortalecimento da infra-estrutura do semi-árido e com a educação e capacitação do trabalhador. Os líderes dos trabalhadores demonstraram desconfiança e incredulidade com as propostas por causa de experiências anteriores, em que a intervenção federal se ateve ao kit emergencial - carro-pipa, cesta básica e frente de trabalho -, apesar de promessas semelhantes."Criou-se o Ministério da Enrolação Nacional e se chamou a sociedade civil, como sempre, para referendar a miséria", afirmou um dos integrantes da coordenação estadual do MST, James Vanzella. "Se o montante anunciado pelo ministro para a emergência é insuficiente, também serão insuficientes os recursos para o projeto de estruturação da região". Outro coordenador do MST-PE, Carlos Brasileiro, acrescentou que os R$ 9 milhões anunciados pelo ministro para água e comida não dão nem para os 56 municípios de Pernambuco em estado crítico e que não serão contemplados porque não decretaram estado de calamidade pública. Dos 110 assentamentos ligados ao MST no Estado, 67 estão localizados na área seca e têm cerca de 6 mil famílias.Diante desta reação, o ministro disse que "a desesperança é a derrota anunciada do nordestino". Dos encontros com representantes da igreja, órgãos federais ligados ao assunto, movimentos sociais e parlamentares, que manteve nos últimos dois dias, ele disse ter recebido sugestões relevantes e percebeu um consenso. "Todos querem estrutura e uma política permanente para o semi-árido, ninguém quer mais assistencialismo". O ministro disse ter ouvido muita reclamação sobre a qualidade dos alimentos da cesta básica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). "Disseram que o feijão não cozinha, mas ainda não sabemos como resolver esse problema."OrçamentoQuanto às notícias de que, no ano passado, o governo federal utilizou pouco mais da metade dos R$ 500 milhões previstos no orçamento da União para obras hídricas, Jungmann disse que 73% dos R$ 232 milhões destinados a investimentos do DNOCS e 63,5% dos R$ 652,73 milhões do Proágua foram executados. "O governo não reteve os recursos", afirmou ele, com base em informações dos dois órgãos."O governo não teve como aplicar, por não aprovação de projeto, porque o projeto não foi entregue em tempo hábil, por governos inadimplentes ou por problemas com o Tribunal de Contas da União (TCU) na fiscalização de irregularidades do DNOCS", afirmou Jungmann.

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