Exército cerca e expulsa homens das Farc na Amazônia

Os acordos de cooperação militar na área de defesa da Amazônia, firmados discretamente pelo governo do Brasil nos últimos cinco meses com a Colômbia, o Equador e o Peru, começam a apresentar os primeiros resultados. Caso prático: há pouco mais de 20 dias, 18 guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) cruzaram a divisa com o Equador na cidade de Ipiales. Atravessaram o município de Tulcán e desapareceram. Semana passada, viajando de novo em território colombiano, atravessaram a fronteira do Brasil e entraram em um pequeno vilarejo à margem do Rio Japurá. Procuravam socorro médico para um homem ferido a tiro e para uma mulher com malária. Estavam bem armados. Queriam comida, combustível e munição. Não levaram nada. Saíram depressa, para evitar o confronto com soldados brasileiros. Deixaram para trás 200 projéteis calibre 7,62mm, 12 granadas incendiárias e panfletos com manifestos políticos da guerrilha. De acordo com um documento reservado da inteligência militar a que o Estado teve acesso, os combatentes das Farc preparavam o que poderia ser uma ocupação de vários dias quando foram obrigados a deixar a área, tangidos pela aproximação do grupo de fogo, a bordo de helicópteros pesados de um batalhão de infantaria de selva. A identificação da unidade e o nome da vila ribeirinha foram preservados sob tarjas pretas no documento. "Essas ações das Farc são ´invasões utilitárias´, eventos rotineiros desde a década de 70, ao longo dos 1600 quilômetros de limites com a Colômbia. A novidade é que nesse episódio houve um alerta antecipado", analisa o coronel Carlos Piño, ex-assessor de segurança do ex-presidente colombiano Andrés Pastrana. Para ele, "a troca rápida de informações é a melhor conseqüência direta dos convênios de cooperação firmados pelo Brasil na região". "Os três países estão afinados na busca de um perfil estratégico comum e, por conta desse consenso, serão criados instrumentos que permitam o uso comum dos dados obtidos pelo Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam", diz o ministro da Defesa, Geraldo Magela Quintão, responsável pela negociação e formalização dos acordos, particularmente os firmados com o Peru e o Equador. O Brasil já tem esses protocolos também com Argentina, Bolívia e Uruguai. O projeto, o maior do mundo em sua classe, custou US$ 1,4 bilhão. O Sivam cobre uma área de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, maior que a da Europa Ocidental. Está sob controle da Força Aérea Brasileira (FAB) e usa aviões de ataque leve A-29 Super Tucano, da Embraer. A costura diplomática e militar executada por Quintão coincide com o remanejamento de 20 mil soldados do Sul e Nordeste (além de um número não revelado de agentes da Polícia Federal) para a Amazônia, desde 1997. Em setembro, o efetivo na área somava 23.100 homens. Desde 2000, foram construídos ou terminados os quartéis dos novos pelotões de fronteira em Uiramutã, Tiriós, Pará-Cachoeira e Maturacá. Em São Gabriel da Cachoeira, o Ministério da Defesa instalou um pier flutuante. A Marinha, que em 1994 transformou a Flotilha do Amazonas em Comando Naval da Amazônia Ocidental,iniciou este ano a mudança do Grupamento de Fuzileiros Navais em Batalhão de Operações Ribeirinhas. O efetivo será completado em 2003. Na Colômbia, a luta contra o narcotráfico e as Farc ganham, em janeiro, uma nova dimensão com a aprovação da expansão do Plano Colômbia, por meio do qual os Estados Unidos apóiam a repressão aos traficantes com US$ 1,7 bilhão. A utilização de equipamentos e recursos americanos estava restrita ao combate aos traficantes, mas o limite foi derrubado pelo Congresso, em Washington. Agora, o Pentágono quer aumentar a ação direta na guerra colombiana e pode pedir cooperação mais efetiva de países do bloco amazônico. "Desde a Guerra do Golfo a política externa americana segue uma doutrina que leva a máquina de guerra dos EUA a agir sempre por meio de coalizões", lembra o coronel Piño. Ele acredita que isso "implicaria a médio prazo na formação de um empreendimento conjunto envolvendo pelo menos cinco países: Brasil, Venezuela, Equador, Peru e Bolívia". CrisesA execução de um empreendimento de ampla abrangência como esse está diretamente ligada a outro conflito: o do Iraque. "Os Estados Unidos se preparam para uma grande guerra, não cometerão a tolice de investir simultaneamente em duas crises armadas", diz o militar. Os presidentes Álvaro Uribe, da Colômbia, e Fernando Henrique Cardoso, discutiram em novembro formas de obter acesso rápido às informações produzidas pelo Sivam. "Detalhes serão definidos em negociações com a participação dos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores dos dois países", diz Quintão. O acordo entre os ministérios da Defesa do Brasil e do Equador, assinado no dia 15 de agosto, em Quito, fixa um mecanismo permanente de consultas e intercâmbio de informações entre as forças armadas. Por conta de uma sugestão do ministro equatoriano das Relações Exteriores, Heinz Möeller, ficou estabelecido que o eventual transbordamento da guerrilha das Farc em direção às nações vizinhas da Colômbia deverá ser tratado em reuniões de alto nível pelo menos duas vezes por ano. O primeiro encontro ocorreu em setembro, para debater o fechamento da fronteira entre Equador e Colômbia, na Ponte Rumichaca, em Carchi, combinada com a exigência de um visto em passaporte ou salvo conduto temporário. A proposta foi rejeitada. No Peru, os ministros Geraldo Quintão e Aurélio Molla anunciaram, também em agosto, o entendimento bilateral para criação de um Grupo de Defesa que, além da cooperação regular, vai preparar uma agenda de temas de interesse binacional a serem discutidos em seminários anuais. Um sistema de ajuda mútua na área científica e tecnológica entre as forças armadas passou a vigorar imediatamente após a assinatura do convênio. Entre os comandos militares do Brasil, a preocupação em relação à preservação da Amazônia é com a internacionalização do conflito colombiano. A Base de Manta, alugada pelo governo do Equador aos EUA, foi modernizada para abrigar um notável esquadrão de vigilância eletrônica, operando grandes aviões AWACS de alerta avançado e RC-135, de escuta e coleta de dados de inteligência. "Não é incorreto considerar que a instalação - fechada ao sobrevôo internacional em 26 de setembro, um dia depois da inauguração oficial do Sivam - pode ser transformada em um centro de controle e comando de uma eventual intervenção na América do Sul", sustenta um brigadeiro do Alto Comando da FAB. A Aviação do Exército decidiu transferir para o 4.º Esquadrão, de Manaus, os oito helicópteros pesados de emprego geral Cougar AS-532, comprados junto à Helibrás-Eurocopter. Três unidades foram entregues e duas já estão em operação. O Cougar pesa nove toneladas e pode levar, além de dois tripulantes, 25 homens armados, dois canhões externos de 20mm e lançadores de foguetes. A frota estará completa até 2004.

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