Exército abre base para expedição

Pela primeira vez desde o final da Guerrilha do Araguaia, em 1975, militares permitem acesso ao local

Leonencio Nossa, O Estadao de S.Paulo

09 de julho de 2009 | 00h00

Pela primeira vez desde o final da Guerrilha do Araguaia, em 1975, o Exército abre hoje uma base militar em atividade para o reconhecimento de locais de sepultamento de ossadas de integrantes do movimento de resistência à ditadura militar ocorrido no sul do Pará.Com apoio dos próprios militares, uma equipe de legistas estará nesta manhã na Base de Treinamento Cabo Rosa, a cerca de dez quilômetros do centro de Marabá. A expedição é a primeira de uma série que vai se espalhar por 15 pontos da região do Araguaia definidos ontem (veja lista ao lado).A operação de busca foi montada pelo Ministério da Defesa para cumprir uma decisão da juíza Solange Salgado, que cobrou da União a localização das ossadas de guerrilheiros. A expedição, chefiada pelo general Mário Lúcio Alves Araujo, irá mapear uma área de selva da base de treinamento. Para se chegar ao local, o grupo fará uma caminhada de uma hora e meia na floresta. O nome da base é uma homenagem ao cabo Odylio Rosa, morto pelo grupo do guerrilheiro Osvaldo Orlando Costa, o Osvaldão, em maio de 1972.Ontem, o grupo de militares e legistas visitou as dependências da extinta Base Militar da Casa Azul, um complexo de 17 mil metros quadrados, em Marabá. Os legistas pretendem escavar, a partir de agosto, uma área nos fundos do comando da unidade. Também foram vistoriados três cemitérios oficiais e um clandestino no município.Os legistas disseram que somente serão feitas escavações em pontos determinados dos cemitérios. Os especialistas dizem que o trabalho é complexo, pois há risco de violação de túmulos de moradores sem relações com o conflito entre guerrilheiros e militares. O cemitério São Miguel, aberto em 1911, é um dos locais em que poderão ser feitas escavações. A equipe de médicos descartou uma nova visita a dois cemitérios inaugurados após a guerrilha e um outro que funcionou até os anos 60 numa área ocupada hoje pela Infraero.DIFICULDADESPor acaso, a expedição revelou um capítulo pouco comentado da história da região. O cemitério clandestino era usado por pobres para enterrar seus parentes e amigos. Não há registros e dificilmente se saberá quantas pessoas sem identificação foram sepultadas no local a poucos metros da pista de pousos e decolagens do aeroporto de Marabá. O vigilante Sandoval Rodrigues de Souza, de 59 anos, disse que o cemitério deixou de funcionar em 1966, seis anos antes dos primeiros combates entre militares e guerrilheiros.Sempre comedido nas palavras e evitando polêmicas ideológicas e históricas, o general Araujo disse ontem que o trabalho dos militares de logística e apoio ao grupo de especialistas ocorre dentro do que estava previsto."Todos os dias vamos avançar, porque estamos no terreno, olhando os locais e conversando com pessoas que conhecem a região", disse, numa referência a camponeses que estão dando informações ao grupo.Representante do governo do Pará na expedição, Paulo Fonteles Filho avaliou que o momento histórico atual é favorável ao trabalho da equipe. Ele lembrou que as expedições de buscas de ossadas feitas nos anos 1990 foram no "limite". "Agora há uma decisão da juíza Solange Salgado", observou. "Vejo que há uma necessidade de resolver o problema, inclusive dentro das Forças Armadas." GUERRILHA 1. Base Militar da Casa Azul, centro de Marabá 2. Cemitérios de São Miguel, centro antigo de Marabá 3. Cemitério da Saudade, bairro da Folha Seca, em Marabá 4. Cemitério de São João, KM 2 da Transamazônica 5. Cemitério em Nova Marabá, em Marabá 6. Base de Treinamento do Exército Cabo Rosa, a 10 quilômetros do centro de Marabá 7. Reserva Indígena Suruí-Sororó, entre São Domingos do Araguaia e São Geraldo do Araguaia 8. Fazenda Fortaleza, município de São Geraldo do Araguaia 9. Base Militar da Bacaba, no KM 68 da Transamazônica 10. Remanso dos Botos, próximo a Xambioá, Tocantins 11. Cemitério de Xambioá 12. Base Militar de Xambioá 13. Região de Caçador, município de São Domingos do Araguaia 14. Região de Dois Coqueiros, município de São Domingos do Araguaia 15. Grota da Água Fria ou Água Branca, em São Domingos do Araguaia

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