Exercício contra acidente nuclear deixa cidade de Angra de fora

Um possível acidente nuclear transformaria a cidade de Angra dos Reis, no sul fluminense, em um caos. Apesar de ter 100 mil habitantes, o município, que abriga as usinas Angra 1 e 2 e está a 120 quilômetros do Rio, não foi incluído nos exercícios de simulação de acidente nuclear realizados pela Defesa Civil do Estado, o chamado Plano de Emergência Externa (PEE).O plano está em sua terceira edição, e contou com a participação de 1.300 pessoas, entre bombeiros, policiais, voluntários e técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), do Exército e dos ministérios da Integração Nacional e da Ciência e Tecnologia. Com custo estimado de R$ 100 mil, o PEE simulou ações que deveriam ser executadas durante um grave vazamento em uma das duas usinas do município.Nos exercícios realizados, foram notificados e removidos 200 moradores em um raio de até cinco quilômetros ao redor do local do acidente simulado. A cidade de Angra está a 15 quilômetros das usinas e por isso foi excluída das operações. "Estamos seguindo estritamente as normas estabelecidas pela Agência Internacional de Energia Atômica", explicou o coordenador do Sistema de Atendimento de Unidade Radiológica da Cnen, Raul dos Santos. Nenhum tipo de exercício para evitar ou controlar o pânico que um acidente poderia provocar nos moradores de Angra foi realizado pelos técnicos envolvidos na simulação.O chefe das operações do PEE, tenente-coronel Sérgio Simões, disse que a preocupação maior é com a remoção dos 10 mil moradores das oito localidades próximas das usinas, e admitiu que não há um plano para controlar as regiões fora da área imediata de risco. "Nossa informação, repassada pela Cnen, é de que a radioatividade nas áreas num raio além de 5 quilômetros do local do acidente não é maléfica".Ele reconheceu, porém, que nuvens radioativas podem atingir essas regiões. "Para evitar essa contaminação não-prevista, fazemos o monitoramento por helicóptero das nuvens radioativas", explicou Simões. Tráfego e pânicoUm acidente real geraria um nó no trânsito da rodovia Rio-Santos, estrada de mão dupla e única saída da região. O próprio chefe do núcleo de operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Antônio Grecchi, adimitiu que seria "muito difícil" controlar o tráfego no caso de uma fuga em massa, mesmo com a ajuda do Exército e da PM. A PRF tem apenas seis viaturas para fiscalizar a estrada, que suporta 1,2 mil carros por hora.Dados do Detran do Rio mostram que, apenas em Angra, existem 14.473 veículos, e numa eventual fuga apressada, se todos os donos de carro resolvessem sair da cidade, seriam necessárias 12 horas para que deixassem o local. Para se ter uma dimensão do problema, segundo a Defesa Civil, apenas para remover os 10 mil moradores das áreas de risco seriam gastas quatro horas."Realmente, eu acho que nós participamos muito pouco desse plano. Eu mesmo não sei o que fazer se a usina explodir", disse o petroleiro Sérgio Dias, que mora há 16 em Angra dos Reis. Ele acredita que a distribuição de panfletos e a veiculação de campanhas educativas periódicas poderiam ajudar na redução do pânico entre os moradores da cidade. O tenente-coronel Sérgio Simões diz que isso já vem sendo feito.Durante os exercícios, foram testados oito sirenes e alto-falantes instalados nas localidades próximas às usinas. Um grupo de 200 voluntários participou dos exercícios de remoção. Eles foram retirados da comunidade Guariba, a três quilômetros das usinas, e levados para o bairro de Frade, fora da área de risco, onde foi criado um abrigo.Por causa de um atraso no cronograma dos exercícios, parte dos voluntários teve que esperar por mais de uma hora pelo ônibus que os levaria para Frade. "Se acontecesse um acidente nuclear, eu nunca ficaria aqui esperando um ônibus por tanto tempo", disse o garçom desempregado Alzenir Alzino Mariano Barbosa, de 25 anos.

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