Executivo tentou apagar dado de computador

Para PF, Bianchi quis jogar fora o disco rígido para destruir lista com doações a políticos

, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2009 | 00h00

Executivo da Camargo Corrêa preso durante a Operação Castelo de Areia, Pietro Bianchi teve conversa gravada em grampo telefônico na qual discute com um interlocutor, identificado apenas como Hélio, a troca do disco rígido de seu computador pessoal. Na conversa, Bianchi avisa que terá de jogar fora a peça antiga porque "passou listagem por ele". Para os federais, a "listagem" pode ser um rol de beneficiários de supostas doações ilegais da empreiteira a partidos e candidatos nas eleições do ano passado.A conversa foi gravada pouco mais de um mês das eleições. Às 11h37 do dia 13 de agosto, Bianchi avisa a Hélio que irá jogar fora seu disco rígido. Ele diz que é por motivo de segurança e que "o pessoal disse que nem apagando" - em referência a arquivos suspeitos, segundo a PF. Hélio pergunta se a mudança de disco rígido deveria ser efetuada em "seu micro". O executivo pede que seja feita em seu "particular"."Vocês vão ter que tirar o que tá lá dentro e botar um novo, mas eu quero comprar o novo pra não ter que pegar, fazer pedido", explica Bianchi.De acordo com os federais, essa foi uma das táticas do grupo para despistar qualquer possível investigação. Além de se preocupar com a troca do disco rígido, Bianchi usava um telefone criptografado, para evitar grampos, apostava em aparelhos de VoIP (que realiza ligações pela internet) e usava o programa de computador Skype, que criptografa automaticamente as chamadas.CODINOMESOutro executivo da Camargo Corrêa, Fernando Dias Gomes, tentava encobrir tratativas com Kurt Paul Pickel, suposto intermediário da empreiteira com doleiros. Ambos foram presos pela PF.Nas ligações, eles utilizavam codinomes para fazer referência a possíveis beneficiários de um esquema de envio e recebimento de remessas ilegais de doleiros. Em chamada do dia 22 de outubro do ano passado, interceptada pela PF, Gomes discute com Pickel. O intermediário diz: "Ouça. O coelho, ele já comeu. Tinha um erro. Quem não tem estábulo é o camelo."Gomes responde: "É, mas tem sim. É que acontece que ele tem um lugar e o pessoal quer em outro. Eu tenho o lugar certo pra ir".Às 17h22 do dia 9 de dezembro do ano passado, Pickel e Gomes chegam a usar a expressão "visita ao Jardim Zoológico" para uma reunião às 10h do dia seguinte. Para os federais, o zoológico é possivelmente a sede da Camargo Corrêa. Quase três meses depois, no dia 19 de janeiro, Pickel e Gomes falam novamente em nome de animais. "Uma pergunta, esse bicho girafa, ele não queria comer. Dizia que não sabia do que se tratava", avisa Pickel. E Gomes dá uma suposta solução para o problema: "Vejo. Eu falo com o domador, lá". E despedem-se.A PF rastreou diversos casos de uso de codinomes e anotou, em seu relatório: "Nos diálogos realizados por telefone pelos investigados, constatou-se que tomariam certas precauções na realização de supostas negociações suspeitas, utilizando-se de nome de "gato", "coelho", "onça", "canguru", "camelo", dentre outros, possivelmente para ocultar os verdadeiros nomes dos indivíduos e/ou de operações, em tese, ilícitas."Ainda de acordo com o relatório dos federais, "apesar dos cuidados acima citados, apurou-se alguns diálogos nos quais seriam feitas alusões às supostas operações financeiras ilegais"."É uma mera especulação de caráter interpretativo", declarou o advogado Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que defende a cúpula da Camargo Corrêa. "O esclarecimento da verdade real passa necessariamente por explicações que os dois interlocutores poderão dar."Para Mariz, "é prematuro levantar qualquer tipo de hipótese e é também temerário já se dar uma interpretação desfavorável aos interlocutores".

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