Executivo relata lobby de Dantas no Congresso

Presidente da Santos Brasil vira testemunha-chave contra banqueiro

Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2009 | 00h00

Wady Jasmin, presidente da Santos Brasil, que detém o controle do porto de Santos, é agora a principal testemunha da Procuradoria da República no cerco ao sócio-controlador do Opportunity Daniel Dantas, denunciado por formação de quadrilha e organização criminosa, evasão de divisas, lavagem de valores e gestão fraudulenta. Jasmin foi arrolado pelo Ministério Público Federal para depor na Justiça porque teria revelado informações importantes sobre o lobby de Dantas no Congresso.Ao delegado Ricardo Saadi, que conduziu a complexa Operação Satiagraha, o executivo da Santos Brasil relatou, em março, que seus encontros políticos eram agendados pelo lobista Guilherme Sodré, o Guiga, denunciado por quadrilha e organização criminosa. "A função de Sodré é única e exclusivamente agendar reuniões com políticos", contou Jasmin, engenheiro químico reconhecido por sua ampla atuação no comércio internacional. "Sodré consegue agendar reuniões de diversos partidos políticos."Jasmin não é investigado pela Satiagraha, seu nome está fora do rol de suspeitos da procuradoria. À PF, ele depôs como testemunha. Afirmou que Dantas "não tem participação na gestão executiva da Santos Brasil". Disse que, por meio de Guiga, reuniu-se com o senador Antônio Carlos Magalhães, morto em 2007, com o ex-deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF) e com a senadora Kátia Abreu (DEM-TO). A PF questionou o executivo sobre contatos com o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, e com a atual ministra da pasta, Dilma Rousseff. Ele negou qualquer encontro.De acordo com a companhia, Sigmaringa é advogado da Santos Brasil, empresa controlada pelo Opportunity, de Dantas, e Sodré é apontado como "consultor de comunicação". No depoimento, Jasmin não dá detalhes do encontro com ACM, mas explica que esteve com a senadora Kátia Abreu no início de 2008 em reunião de 20 minutos.Consultado pelo Estado sobre a reunião com Kátia, o executivo respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que não poderia dar detalhes. Ele afirmou que, como o depoimento ainda não foi marcado, seria um desrespeito falar ao Judiciário por meio da imprensa.Para a senadora, porém, o assunto relembra "momentos de tensão". Em interceptação telefônica da Satiagraha, Sodré afirmou que Kátia teria recebido R$ 2 milhões de empreiteiras para aprovar emenda que flexibilizava o modelo de concessão de terminais portuários - projeto de interesse da Santos Brasil. "Meu episódio com ele (Sodré) é o pior possível", disse.À época da acusação, julho de 2008, Kátia qualificou Sodré de "gângster" e "bandido". Entrou com interpelação judicial no Supremo Tribunal Federal pedindo que o lobista esclarecesse as declarações. Segundo ela, Sodré desmentiu as acusações. Sobre o encontro com Jasmin, a senadora informou que de fato o recebeu e que ele estava acompanhado de Carlos Rodenburgo, cunhado de Dantas e gestor do braço agropecuário do Opportunity.A reunião ocorreu antes do escândalo do suposto pagamento de propina. Ela disse que tentaram pressioná-la a "desistir da luta" de criar o conceito de porto privado misto, o que quebraria "o cartel de Dantas no Porto de Santos". "Tudo aquilo é uma grande máfia", acusa a senadora Kátia Abreu.O Opportunity Fund, de Dantas, detém o controle acionário da Santos Brasil e membros do grupo são donos de cadeiras no Conselho de Administração da companhia. Para o Opportunity, a Satiagraha é uma "fraude". O criminalista Andrei Schmidt rechaça categoricamente irregularidade. A Santos Brasil nega ingerência do Opportunity Fund.O procurador da República Rodrigo de Grandis informou que, dentro da cooperação jurídica internacional, requisitou remessa de cópia da denúncia contra Dantas aos EUA e à Inglaterra, que congelaram US$ 500 milhões do banqueiro. "A denúncia mostra o trabalho do Ministério Público Federal e reforça a necessidade do bloqueio."

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