Executivo diz que Dirceu atuou em favor de empresa

Em novo depoimento enviado ao Supremo, Camargo afirmou que ex-ministro procurou Gabrielli para que Petrobrás contratasse Toyo

Beatriz Bulla, O Estado de S. Paulo

21 Abril 2015 | 21h06

BRASÍLIA - O executivo da Toyo Setal Julio Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou em novo depoimento prestado no dia 8 de abril que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu interveio pela contratação da empresa junto ao ex-presidente da Petrobrás José Sergio Gabrielli. O depoimento faz parte do material encaminhado pela Polícia Federal ontem ao Supremo Tribunal Federal relativo aos inquéritos que apuram envolvimento de políticos no esquema de corrupção e propina na estatal.

Camargo disse à PF que conheceu o petista em uma festa de aniversário do ex-ministro, quando ele já tinha deixado a Casa Civil do governo Lula. O convite foi feito por um amigo em comum. Os dois tiveram mais de 20 encontros, segundo os relatos de Camargo, a maioria no escritório ou na residência de Dirceu. 

No novo depoimento, Camargo afirma que tinha meios de dar suporte financeiro à Petrobrás, mas em contrapartida a estatal deveria celebrar contrato com um consórcio do qual a Toyo fazia parte. Diante da sinalização de mudança da Petrobrás desse modelo de negócio, o executivo teria buscado ajuda de Dirceu. O ex-ministro disse, segundo o relato de Camargo, “ter feito gestão junto a Gabrielli no sentido de entender por qual razão a Petrobrás havia mudado a sistemática”.

Ele declara que doou valores ao PT, mas destaca que nunca ofereceu vantagens “devidas ou indevidas” a Dirceu. Apesar disso, Camargo diz ter autorizado viagens de Dirceu em seu avião em “várias oportunidades”, mas não se lembra de o petista ter feito menção a ninguém da Petrobrás nas viagens.
Venezuela. Dirceu e o executivo da Toyo também conversaram sobre a Venezuela, segundo o delator. A Toyo enfrentava problemas na execução de contratos no país e Dirceu teria sinalizado que “conseguiria uma entrada” de Camargo com o presidente da PDVSA, estatal venezuelana responsável pela exploração de petróleo. O executivo não teve autorização da Toyo para continuar com a negociação.

O executivo da Toyo relata ainda ter se encontrado com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também investigado no âmbito da Lava Jato, em duas ocasiões. Os dois trataram de questões do setor portuário. Na época, estava em tramitação no Congresso a medida provisória conhecida como MP dos portos, que regulamentou o setor. Cunha teria perguntado a Camargo se haveria disponibilidade de a Toyo, por meio de um banco japonês, conseguir financiamento para projetos em portos. O peemedebista teria prometido “fazer gestões” para a contratação da Toyo caso o financiamento fosse obtido. As conversas cessaram depois que Camargo afirmou que não conseguiria obter o financiamento.

Cunha disse ao Estado ter sido procurado por diversas pessoas na época e uma delas poderia ter sido Camargo. Ele afirmou que o executivo queria investir e a nova legislação previa investimentos privados em áreas externas dos portos. / COLABOROU DANIEL CARVALHO

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