Ex-servidor deu à PF nomes de quem provaria atuação de lobista

Israel Batista, que era da comissão de licitação, citou nomes de possíveis testemunhas que sabem de vínculos suspeitos

Felipe Recondo, de O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2011 | 23h00

BRASÍLIA - A Polícia Federal já tem elencados os nomes de servidores que poderão confirmar a relação do lobista Júlio Fróes com o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi e o ex-secretário do Ministério Milton Ortolan. Em depoimento prestado na segunda-feira, o ex-presidente da Comissão de Licitação do ministério Israel Leonardo Batista citou sete servidores que, sendo interrogados pela PF, poderão confirmar se Fróes frequentava o prédio, inclusive os gabinetes do ministro e do ex-secretário.

 

Batista foi ouvido durante seis horas pelo delegado Leo Garrido de Salles Meira na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Ao final, o depoimento formal foi colhido.

 

Batista cita as pessoas que poderiam ser ouvidas como testemunhas da presença frequente e da relação de Fróes com a cúpula do Ministério da Agricultura. Seria uma alternativa à comprovação de suas denúncias, já que o próprio Israel dizia desconfiar que as imagens do sistema de segurança do ministério seriam apagadas.

 

Nas oito páginas do depoimento, a que o Estado teve acesso, foram colocadas tarjas nos nomes das possíveis testemunhas, uma forma de preservá-las e evitar que sofram ameaças ou possíveis retaliações.

 

À Polícia Federal, Batista afirmou que Fróes lhe ofereceu R$ 5 mil de propina, dinheiro que ele disse ter recusado. O valor foi oferecido, conforme Batista, depois de fechado um contrato entre o Ministério da Agricultura e a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC.

 

"Júlio disse que era uma ajudinha referente ao auxílio prestado durante a execução do termo de referência relativo à contratação da Fundasp-PUC", afirmou Batista em seu depoimento.

 

Esse contrato, no valor aproximado de R$ 10 milhões, previa a capacitação de servidores públicos federais. E nesse processo, Fróes teria dito estar seguindo "ordens do chefão" para fechar o contrato sem necessidade de licitação.

 

No depoimento, Batista não soube dizer se o chefão seria Milton Ortolan ou Wagner Rossi.

 

Em outro trecho do depoimento, Batista relatou que, ao suspender um processo de licitação por problemas formais ouviu reações de quem estava disputando o contrato. "Um outro licitante, indignado, disse que tinha conhecimento que já estava ‘tudo acertado com o 8.º andar (onde fica o gabinete do ministro) para o direcionamento da licitação’, inclusive com pagamento de propina acertada no valor de R$ 2 milhões", relatou à PF.

 

As acusações levaram a coordenadora-geral do setor, Karla Renata França Carvalho, a determinar que Batista não registrasse as acusações em ata para não provocar "problemas para o 8.º andar".

 

À PF, Batista disse ter sido chantageado e ameaçado de morte por não colaborar com as irregularidades e por ter denunciado a relação de Fróes com a cúpula da Agricultura.

 

"Eu recebi duas ligações. Diziam: ‘Você me paga’. Eu falei para o delegado que depois que morrer, não tem mais jeito", disse ao Estado. "Se você denuncia alguma coisa, o Estado tem o dever de apurar e te ajudar. Eu entendo dessa maneira. Hoje, não consigo trabalhar, tenho que andar escondido", acrescentou.

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