Ex-presidentes pensaram em reação contra Braga Netto, mas recuaram

Silêncio de líderes mostra o quanto cientista político Eliezer Rizzo de Oliveira acertou em sua análise publicada pelo ‘Estadão’

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2021 | 10h04

Caro leitor, 

 

Cada vez é maior o número de pessoas interessadas em ouvir cientistas políticos como Eliezer Rizzo de Oliveira e João Roberto Martins Filho para compreender o que se passa no País. E esse é mais um índice a mostrar o acerto das análises dos dois estudiosos das relações entre civis e militares e das Forças Armadas do Brasil. Ambos veem o avanço da militarização do Executivo e a ação de generais como importante sustentáculo do governo de Jair Bolsonaro. “O protagonismo militar está em pleno ato. A consequência inevitável é a politização dos mais diversos meios e instituições militares”, disse Eliezer ao repórter Wilson Tosta

Enquanto um grupo de militares – muitos dos quais diretores do Instituto Villas Bôas – procura criar um “projeto para o Brasil”, Eliezer mostra que, apesar de alguns expressarem reservadamente restrições ao presidente, a ideologia que os move tem muitos pontos de encontro. “Identifico um projeto de Estado danoso: antissocial; autoritário; ultraliberal; promotor do armamento da população como uma espécie de segurança pública privada; negacionista da ciência e da educação pública; controlador do pensamento científico; confrontador da institucionalidade democrática, dos poderes da República, do voto, das eleições.”

Impossível ser mais claro. Para quem tivesse ouvidos e uma capacidade de análise minimamente educada teria sido possível perceber antes da eleição de Bolsonaro que boa parte do discurso disruptivo do presidente já se encontrava nas ideias do general Villas Bôas e de seus colegas, como o general Luiz Eduardo Rocha Paiva. Ali estão o ataque aos ecologistas e à defesa do meio ambiente como danosos ao que consideravam ser o interesse nacional e o desconhecimento de políticas públicas, normalmente julgadas por uma visão ideológica atrasada e que levou a desastres na Amazônia, na Educação, nas Relações Exteriores, na Ciência e na Saúde. 

Ao lado deles estão autoritários que desejam fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, criticados porque são o contrapeso da República e não pelos defeitos e falhas reais. Há os que sonham com estados de sítio, há os negacionistas da ditadura, os defensores de torturadores e assassinos, os que preferem os esbirros aos professores ou louvam o fuzilamento e a censura e odeiam intelectuais, artistas e jornalistas. “Abajo la inteligencia, viva la muerte”, disse o general franquista José Millán-Astray ao reitor da Universidade de Salamanca, o filósofo Miguel de Unamuno. De nada adiantou Unamuno ser um conservador. O fascismo não tem limites.  

O “pior governo da história nacional” não é fruto da personalidade de um mito, mas uma obra coletiva. E nela existe a visão desastrosa de quem pensava que ia salvar o País. Sozinho. No sábado, o capitão disse que, se tivesse coordenado o combate à pandemia, o número de mortos no País seria muito menor. Mas a Nação não está disposta a imolar a Bolsonaro mais 550 mil brasileiros só para provar ao presidente que ele está errado. O que diferenciou o País de outros foi o comando de alguém incapaz de reconhecer, como fez Boris Johnson, o líder do Reino Unido, seus erros e abandonar tratamentos mágicos para ouvir a ciência. 

Diante dessa trágica evidência, o que fazem generais como Walter Braga Netto? Têm a lealdade que se espera de um comandado, aquela que o obriga a não dizer amém o tempo todo, mas também a alertar o chefe sobre o erro, o desacerto, o rumo incorreto? Braga Netto incentiva as diatribes contra a democracia do capitão. Os resultados do governo criaram o antibolsonarismo como força política ainda maior do que o antipetismo. O espectro de Lula na Presidência a cada dia se afirma mais como o último refúgio dos generais que ainda apoiam Bolsonaro. 

A fila dos que aguardam uma terceira via cresce a olhos vistos, ainda que ela seja mais uma ideia do que uma possibilidade real. Há os que sonham com as figuras do ex-juiz Sérgio Moro e com generais como Santos Cruz. E há Braga Netto e sua ameaça às eleições. O episódio revelado pelo Estadão mostra que o ministro da Defesa não permanecia apenas na posição de quem assistia em silêncio a um presidente – considerado por alguns generais como um louco da aldeia – ameaçar a democracia sob o pretexto da adoção do voto impresso, que já é auditado pela Justiça Eleitoral. Ele agia.

Em 25 anos, as urnas eletrônicas nunca foram fraudadas no Brasil, como atestam as investigações da Polícia Federal. Em São Paulo, a Superintendência da PF fez perícia e acompanhou o processo de auditoria. Atestou que as denúncias tinham como base diferenças normais de softwares usados. Nada mais. Braga Netto poderia conversar com os policiais da Delegacia de Defesa Institucional da PF. Podia consultar o experiente delegado Marcelo Salum. Ou o desembargador Waldir Sebastião de Nuevo Campos Junior, presidente do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Qualquer um deles daria uma aula ao general sobre a segurança da urna eletrônica.

O general prefere se consultar com seus grupos de WhatsApp ou com o deputado Filipe Barros (PSL-PR), o que mandou uma equipe se passar por integrante de uma empresa de cibersegurança para arrancar na cadeia, em Minas, as declarações do hacker Marcos Roberto Correia da Silva sobre invencionices a respeito das urnas eletrônicas. Barros não contou aos espectadores do vídeo que confiou na palavra de um réu por estelionato. Ou seja, o “trunfo”do deputado para impor o voto impresso tem na ficha o crime definido pelo artigo 171 do Código Penal, conforme mostrou o repórter Vinícius Valfré, do Estadão

É gente assim que traz as informações que sustentam a posição de Braga Netto. Talvez nem ele acredite na fraude da urna. O que Eliezer e Martins Filho alertam é que o discurso que deslegitima a eleição leva ao golpe. “O ministro age como se fosse membro de um diretório nacional partidário. Sim, no caso, do partido verde-oliva que governa com Bolsonaro”, disse Eliezer. O truque foi revelado. Ninguém se importa mais com o que Bolsonaro fala ou faz. Mas com Braga Netto as coisas são diferentes. Até ele deve saber que o tempo do blefe acabou. Agora é pôr o Leopard na rua ou entregar o poder ao candidato legitimamente eleito pelo povo em 2022

Muitos se perguntam sobre o papel que será desempenhado pelo Alto Comando do Exército quando a hora adversa chegar. Em entrevista recente, o general Francisco Mamede de Brito Filho, um dos poucos a se manifestar publicamente, disse: “Ele (Braga Netto) não tem esse direito de manifestar um pensamento (…) que agride frontalmente outro Poder". Sobre o golpe de Bolsonaro, afirmou: "Trago aqui o testemunho, por conhecer as pessoas que estão no Alto Comando de que é uma situação inimaginável”. Não foi o único. A coluna ouviu o mesmo de generais da ativa e da reserva. Um deles, um quatro estrelas da reserva, referiu-se de forma pouco elogiosa a Braga Netto em razão do papel do ministro na crise.

Cabe agora ao mundo civil fazer a sua parte. Eliezer alertou que não basta afirmar que a situação criada pela volta dos militares à política faz mal ao Brasil e representa um risco gravíssimo à democracia. “Devemos ir além. Os candidatos à eleição presidencial de 2022 precisam firmar posição sobre o que pretendem fazer com as Forças Armadas, os militares, os policiais, a defesa nacional e a segurança pública.” Não bastam palavras soltas ao ar, reafirmou o professor.

Ele conclui: “A saída da presente militarização da administração federal não será uma tarefa dos militares, mas dos políticos previdentes e com a participação necessária das Forças Armadas institucionais. Pois elas existem e cumprem suas funções no dia a dia”. Na semana passada, a coluna apurou que interlocutores tentaram unir os ex-presidentes do País em um documento contra a ameaça de Braga Netto à democracia. Não houve acordo. O silêncio que se seguiu mostra o quanto Eliezer está correto.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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