FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Ex-presidente da Alerj, Jorge Picciani morre aos 66 anos

Ex-deputado morreu em São Paulo, onde fazia o tratamento de um câncer na bexiga desde 2017

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 08h13
Atualizado 15 de maio de 2021 | 19h11

RIO – Um dos símbolos da política fluminense na era Cabral, o ex-deputado Jorge Picciani foi influente em cinco governos do Rio, interlocutor político de presidentes e ministros e padrinho de alianças e articulações à direita e à esquerda. Com Sérgio Cabral Filho e Paulo Melo, formou na Assembleia Legislativa do Rio um trio que, por quase um quarto de século, foi decisivo nos bastidores da política fluminense. Viveu o auge do poder no Estado, que lhe deu acesso a palácios governamentais e à prosperidade, mas também o levou à cadeia, acusado de corrupção. Morreu aos 66 anos, nesta sexta-feira, 14, de câncer, sem mandato, enfrentando a Justiça, no ostracismo – apenas um homem.

Um político fluminense, que pediu anonimato, definiu o colega como “pragmático”. Segundo ele, “era o cara que fazia a guerra e assinava, com a maior tranquilidade, o acordo de paz”. Picciani também era capaz de “ameaçar com CPI” um governo e depois ajudá-lo a conseguir verbas – sempre por pragmatismo. No primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006), o ministro da Casa Civil, José Dirceu, não deixava de conversar com ele, sempre que vinha ao Rio. 

Em 2014, Picciani comandou no Rio o Aezão – dissidência de apoio a Aécio Neves (PSDB) e a Luiz Fernando Pezão (PMDB), contra o PT. Depois, recompôs-se com Dilma, de quem se afastaria, para ajudar a articular o impeachment. Chegou a ir a São Paulo para uma reunião de estratégia com Michel Temer e Eduardo Cunha.

Tanto pragmatismo começou, aparentemente, após a primeira candidatura a deputado estadual, pelo PSB, em 1986, no Rio de Janeiro pós-ditadura. Derrotado na legenda renascida com o fim do autoritarismo, Picciani mudou-se para o PMDB, então o maior partido do País, com quase todos os governos estaduais e o controle do Palácio do Planalto. Elegeu-se para a Alerj, em 1990, e ali cresceu politicamente. Emendou cinco mandatos como deputado estadual, tornou-se primeiro-secretário – o poderoso administrador do Legislativo. Depois de Cabral trocar a presidência da Casa pelo Senado, em 2002, virou presidente da Assembleia.

Na infância em Mariópolis, Picciani vendia doces. Eram feitos pela mãe, uma doceira com antepassados árabes. O pai era confeiteiro, descendente de italianos. Tinha três irmãos. O parlamentar contava, divertido, que vendia cocadas em um bordel, e dizia ter estudado no Colégio Pedro II. 

Formou-se em contabilidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em estatística pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE). Trabalhou no IBGE e foi auditor fiscal em Mato Grosso, no início dos anos 1980. Em 1984, foi um dos funcionários afastados em sindicância interna sobre um suposto esquema de sonegação fiscal. Deixou seu posto em Rondonópolis. No mesmo ano, comprou sua primeira fazenda – 168 hectares em Cachoeira do Funil, Rio das Flores (RJ).

A condição de produtor rural sempre foi objeto de questionamentos dos adversários. Apontavam suposto uso da atividade como pecuarista como biombo para esconder dinheiro de origem ilegal. Ele negava. Segundo suas declarações de bens à Justiça eleitoral, seu patrimônio, em valores não corrigidos, foi de R$ 200 mil em 1997 a R$ 10,3 milhões em 2013.

A partir de 1995, com a eleição de Cabral para a presidência da Alerj – com Picciani na primeira-secretaria e Paulo Melo como líder – o trio cresceu politicamente. Começou ali o ciclo de influência política dos três nos governos de Marcello Alencar (1995-1998), Anthony Garotinho (1999-2002) e Rosinha Garotinho (2003-2006). Em 2007, com a eleição de Cabral para o governo do Rio, o grupo chegou diretamente ao Palácio Guanabara. Picciani então assumiu o comando da Assembleia Legislativa. Sob sua presidência, a Casa, claro, apoiou o governo Cabral – cujo esquema de corrupção ruiria anos depois. Mas também abrigou a CPI das Milícias, que apontou a ação de grupos criminosos na política do Rio.

Em 2010, tentou o Senado. Numa conversa a bordo de um avião, Cabral tentou convencê-lo a fazer campanha com Lindbergh Farias (PT). Com seu jeito durão, Picciani cortou o diálogo, dizendo que cuidaria da sua campanha sozinho. E, com o aparelho no ar, anunciou a Cabral: “Eu desço aqui”.

De volta à Assembleia, em 2015, e influente de novo no governo estadual, agora sob Pezão, Picciani foi preso, em 14 de novembro de 2017 na Operação Cadeia Velha. Era um desdobramento da Lava Jato no Rio, que investigava uma caixinha de empresários de ônibus para deputados. Seu filho, Felipe Picciani, também foi preso. “O que aconteceu hoje com meu filho é uma covardia feita para atingir tão somente a mim”, reagiu, no Facebook. Melo também foi preso.

Desde 2016, Cabral já estava na cadeia. Picciani, que já fora alvo de condução coercitiva, em março, na Operação O Quinto do Ouro, conseguiu ser solto, mas não teve como disputar o pleito de 2018. Ainda em 2017, foi diagnosticado com câncer de bexiga, que o matou no Hospital Vila Nova Star. 

“O MDB do Rio está de luto”, afirmou em nota o diretório fluminense do partido, do qual era o último cacique, massacrado nas eleições de 2018, na avalanche do bolsonarismo. /COLABORARAM CAIO SARTORI e MATHEUS LARA

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