Ex-mateiro desvenda morte de Rosalindo

Ex-mateiro desvenda morte de Rosalindo

Olímpio Pereira, de 87 anos, descreve como matou guerrilheiro no Araguaia

Leonencio Nossa, ENVIADO ESPECIAL A SÃO GERALDO DO ARAGUAIA (PA)

21 de setembro de 2014 | 03h00

Um matador das margens do Rio Araguaia, no sudeste paraense, confessa a autoria de uma das mortes mais envoltas em mistérios e especulações de um integrante da guerrilha do PC do B no tempo da ditadura militar. O agricultor aposentado Olímpio Pereira, de 87 anos, relatou ao Estado, em meio a pausas e recuos, a emboscada e a execução do guerrilheiro baiano Rosalindo de Souza, o Mundico, de 32 anos, em setembro de 1973. Desde que o corpo do militante foi encontrado próximo a um casebre coberto de folhas de babaçu, na selva amazônica, uma guerra de versões é travada pelos dois lados do conflito. 

Na varanda de sua casa num bairro de São Geraldo do Araguaia, a poucos quilômetros do rio, rodeado de netos, Olímpio conta o momento derradeiro de Rosalindo. O matador quase não pisca os olhos. Com uma magreza que expõe as costelas e 1,80 metro de altura - medida elevada para os padrões locais -, ele faz um relato de quem conta um feito. “Fui no rastro dele, segui pela mata”, afirma. Ele encontrou o guerrilheiro no casebre de palha de um sitiante conhecido por João do Buraco. Rosalindo tinha saído da mata para se alimentar. Olímpio estava à espreita, com uma espingarda calibre 12. “Parei. Ele estava lá. Atirei na direção. Foi um tiro só.”

Natural de Porto Nacional, então cidade do norte goiano, hoje Tocantins, e pai de 13 filhos, Olímpio foi um dos mais destacados guias e mateiros do Exército no combate ao movimento armado. Ganhou terra e dinheiro dos militares. Mas a causa da morte de Rosalindo, embora o ex-guia não admita, possivelmente mistura vingança e cumprimento de ordem.

Um ano antes, o camponês João Pereira, de 21 anos, filho de José, amigo e compadre de Olímpio, foi morto por Rosalindo. Foram dois irmãos de João que indicaram a localização do ex-guia e acompanharam o Estado até o matador. Olímpio compartilhava a história secreta de Rosalindo com a família Pereira. 

Naquele mês de setembro de 1973, há exatos 41 anos, o Exército não fazia combates nem dava ordens a mateiros para caçar guerrilheiros. Era um momento de trégua e de trabalhos de inteligência. Agentes infiltrados nos povoados e sítios apenas colhiam informações para uma investida final. Os militares tinham feito duas campanhas sem conseguir eliminar a guerrilha. Quando Rosalindo caiu, estava em curso a Operação de Inteligência Sucuri, que forneceria dados usados na terceira e última campanha militar. 

Diante do fracasso do uso de soldados na selva nas duas primeira campanhas, o Exército passou a recrutar camponeses como guias e chefes de equipes de caça na etapa final. “A polícia não sabia entrar na mata. O guerrilheiro só sabia andar nas estradinhas”, diz Olímpio. Ele, porém, já atuava com os militares nas primeiras campanhas. 

A princípio, o ex-guia minimizou sua participação no combate à guerrilha. Depois, fez longos relatos para afirmar sua fidelidade aos militares. “Fui companhia da lei e da ordem. Sempre trabalhei com a polícia (Exército)”, diz. “Trabalhei para respeitar o direito do Exército. Ele manda em você. Você deve fazer isso. É o medo da taca (surra). Sofri por ser guia, mas não apanhei.” Olímpio só fez a confissão após três horas de conversa. 

Quatro versões. O relato de Olímpio, um homem que não tem interesses na elucidação do crime ou no protagonismo do episódio, dá a Rosalindo uma última versão para sua morte. Foram quatro em quatro décadas: acidente com a própria arma (versão dos comandantes da guerrilha), suicídio (moradores da região), “justiçamento” (militares) e morte provocada pelos militares (ativistas de direitos humanos).

Em 1972, o guerrilheiro Ângelo Arroyou escreveu em relatório que a morte de Mundico ocorreu “por acidente com a arma que portava”. Essa versão foi chancelada no diário atribuído a Maurício Grabois, comandante-chefe do movimento armado. Grabois tinha, naquele momento, informações de que o guerrilheiro cometera suicídio. 

Em 2009, o agricultor José Maria de Oliveira disse ao Estado ter ouvido João do Buraco falar que encontrou o corpo de Rosalindo e que o guerrilheiro se matou. João do Buraco, falecido, também fez o relato do suicídio, na época, para guerrilheiros que estavam à procura de Rosalindo. Não há registros - e Olímpio diz não se lembrar - se João do Buraco o viu ou testemunhou o assassinato do guerrilheiro. 

A versão mais difundida sobre o fim do guerrilheiro, porém, foi dado por militares. Ao longo do tempo, eles tentaram emplacar que Rosalindo foi “justiçado”, isto é, morto por uma companheira de guerrilha, Dinalva Oliveira Teixeira, a Dina, por suposta decisão de um tribunal revolucionário. Nessa versão, Rosalindo teria sido condenado por descumprir regras de convivência no grupo. Dina teria executado a pena. Para a ativista de direitos humanos Diva Santana, essa versão foi difundida a fim de desqualificar os guerrilheiros. Ela avalia que a morte de João foi um grande erro da guerrilha.

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