Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Ex-interno volta à Fundação Casa como professor

Em palestra, Luiz Henrique relata como conseguiu sair da vida do crime ao aprender uma profissão

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2021 | 05h00

Com terno, gravata, óculos de sol e um penteado impecável, Luiz Henrique de Almeida Santos caprichou no visual para visitar velhos conhecidos. O estilo foi escolhido a dedo para marcar sua atual fase e também incentivar os antigos colegas a seguirem o mesmo rumo. Aos 25 anos, formado barbeiro, o ex-interno da Fundação Casa voltou ao local de sua última internação, agora como professor.

A cor azul brilhante do terno ressaltou o simbolismo da oficina realizada no último dia 14 diante de jovens da Casa Ônix, uma das 121 unidades do sistema socioeducativo do Estado. Luiz Henrique passou dois anos lá e a duras penas aprendeu a importância do trabalho honesto para superar um histórico de criminalidade.

“Todo conhecimento é válido, o certo e o errado também, até para que a gente possa escolher entre eles e conseguir sobreviver. Eu achava que tinha nascido para o crime. Comecei com 11 anos, era esse o meu trampo, não achava que podia dar certo não sendo bandido. Mas não é que deu?”, relatou o jovem a 23 adolescentes internados já pela segunda vez. Todos negros e, parte deles, sem uma família estruturada para os receberem de volta.

“Vou passar um papo reto para vocês. Se aqui tá difícil, lá fora pode estar mais ainda. Não tenho pai, nunca conheci e, quando saí, minha mãe estava desempregada. Aliás, minha família não acreditava em mim e tinha gente que jurava que não duraria uma semana na rua”, disse. “Não estou aqui para falar o que devem fazer, mas só para contar a minha história e mostrar que pode dar certo.”

Antes de iniciar a oficina acompanhada pela reportagem do Estadão no Complexo da Vila Maria, na capital paulista, Luiz Henrique relatou parte de suas experiências. Falando a mesma língua que os meninos, o ex-interno relembrou que começou a acompanhar o barbeiro da unidade só para ter o que chamam de um “plano de saída”. 

“No começo era só isso mesmo. Não me interessava por nada de verdade. Muitas vezes pedia para ficar na tranca (dentro do dormitório, sem atividade). Fugia de aula, de curso. Mas, aos poucos, até os funcionários começaram a elogiar meus cortes. Em véspera de dia de visita fazia fila para cortar comigo”, lembrou Luiz Henrique, hoje orgulhoso da mudança que tomou na vida.

Arrepiado

Sentados, em silêncio, os internos começaram aos poucos a demonstrar interesse pela conversa, especialmente quando o barbeiro entrou em ação. Ao trocar o paletó por um avental com máquinas de cortar, tesouras e pomadas nos bolsos, o morador da “quebrada” – como Luiz Henrique chama a Vila Elba, bairro onde mora – atraiu o público para perto. K.E., de 18 anos, foi o primeiro.

Internado na Casa Ônix há um ano e um mês, ele é um dos poucos “privilegiados” da turma. A mãe já montou uma pequena barbearia para ele recomeçar quando ganhar a liberdade. “Já fiz cursos, gosto bastante dessa função, a única, aliás, pela qual me interessei até hoje”, contou K.E. O jovem disse que, apesar do suporte familiar, sente que terá dificuldades ao deixar a unidade. “Sei que será difícil, mas esse é um caminho mesmo pra mim. Adoro fazer o ‘corte de mil’, aquele todo arrepiado.”

Atencioso e detalhista, Luiz Henrique usou o tempo com os internos para também se redimir. Ao lembrar das sessões de psicodrama conduzidas por voluntários do Projeto Águia, nas quais o criminoso é levado a se colocar no lugar da vítima, o jovem barbeiro demonstrou arrependimento pelo que já praticou na vida. “Foi aí que eu comecei a avaliar o que estava fazendo com as outras pessoas”, disse. Em liberdade, a mesma entidade o acolheu e financiou parte do maquinário necessário.

Diretor da unidade, Daniel de Castro considerou a oficina uma janela de esperança. “A maioria aqui se interessa por corte de cabelo. Muita gente pode ganhar a vida lá fora com essa profissão. Esses jovens precisam de uma mão para enxergarem isso. E o Luiz faz com que eles se reconheçam numa história de superação. Isso é gratificante para nós”, afirmou.

Com 53 internos (a capacidade máxima é 56), a Casa Ônix comemora o sucesso do programa que descentralizou a internação de menores no Estado e pôs fim aos relatos constantes de rebeliões na antiga Febem. O clima é outro e o visual também. Basta ver os cabelos estilosos dos internos, que hoje não têm mais as cabeças raspadas. l

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