Andre Dusek/Estadão
Andre Dusek/Estadão

Ex-gerente de Abreu e Lima nega na CPI ter recebido propina

Segundo Shinko Nakandakari, um dos operadores do esquema de corrupção na estatal, Glauco Colepicolo Legatti recebeu, de forma parcelada, R$ 400 mil entre 2013 e 2014

Daniel Carvalho e Daiane Cardoso , O Estado de S. Paulo

31 de março de 2015 | 10h18

Atualizado às 16h45

BRASÍLIA - Em mais de seis horas de depoimento à CPI da Petrobrás nesta terça-feira, 31, o ex-gerente-geral de Implementação de Empreendimentos para a refinaria Abreu e Lima (PE) Glauco Legatti negou ter recebido propina e se disse apunhalado pelas costas por seu "amigo pessoal", o empresário Shinko Nakandakari. "Não tenho medo de ser preso porque não tenho porque ser preso", afirmou. 

"Não sou o técnico da propina", disse Legatti. "Não recebi nada do senhor Nakandakari. Não sei se ele se aproveitou da amizade que tinha comigo para obter vantagens junto à empresa (Petrobrás)", afirmou o engenheiro que ainda atua na Petrobrás, apesar de ter sido afastado da gerência-geral em novembro do ano passado. "Não recebi um centavo do senhor Shinko". Ele alegou também desconhecer pagamento de propina a partidos políticos. As negativas irritaram os deputados. "Colabore agora neste momento", esbravejou o deputado Carlos Marun (PMDB-MS). Pressionado, admitiu apenas ter se encontrado com o empresário em hotéis no Rio.

A indignação de Legatti não convenceu os deputados, que o questionaram diversas vezes por que ele não processou, até o momento, o empresário que o acusa. Nakandakari disse em delação premiada ter pagado a Legatti R$ 400 mil em propinas durante um ano. À força-tarefa do Ministério Público Federal, o empresário disse ter oferecido propina "na cara e na coragem" para que Legatti aprovasse aditivos aos contratos das obras da refinaria.

Ao todo, foram assinados 396 aditivos, segundo o ex-gerente-geral. Legatti disse que 136 foram aditivos de valor dos contratos e que não cabia a ele aprová-los. O valor da refinaria, que começou a funcionar no ano passado, passou de US$ 2,4 bilhões para US$ 18,5 bilhões. Assim como fez em depoimento à CPI do Senado, no ano passado, o ex-gerente-geral negou superfaturamento na planta industrial.

Legatti afirmou ser "amigo pessoal" de Nakandakari há 15 anos e, apesar de se dizer "surpreso" com a delação premiada do empresário, não se considerou traído. "Não sabia das relações e das negociações que ele tinha. Foi uma surpresa muito grande para mim", afirmou. "Só pode dar uma facada nas costas aquela que pode te abraçar. Shinko usou da minha boa fé e amizade para fazer esse tipo de coisa", afirmou, dizendo-se "indignado".

Ao negar "veementemente" ter recebido propina, Legatti subestimou o valor da propina. "Como engenheiro, ganhava muito mais do que isso", disse aos deputados. Segundo o ex-gerente-geral, as supostas irregularidades envolvendo a refinaria Abreu e Lima ocorreram "do lado de fora" da estatal. "As coisas não aconteciam lá", afirmou, apontando falhas no relatório da comissão interna da Petrobrás. Legatti disse não se opor à quebra de seu sigilo bancário. "É uma prerrogativa de vocês", disse aos parlamentares.

"O depoimento dele evidencia que alguém está mentindo nesta história", disse o relator da CPI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ). "Tudo o que foi feito na Renest (refinaria Abreu e Lima) não é diferente do que foi feito na Petrobrás", respondeu Legatti.

Barusco. Legatti disse à CPI que nunca foi apadrinhado na estatal e que suas indicações se deram através de superiores diretos, entre eles Pedro Barusco, que confessou ter recebido e repassado propinas. Segundo Legatti, o relacionamento com Barusco era "estritamente profissional". "Como subordinado de Barusco, ele sempre foi muito rigoroso com todos nós", declarou. Ele disse aos deputados que não tinha conhecimento do esquema na Petrobrás e que só soube através dos jornais.

No depoimento, Legatti afirmou que nunca foi subordinado à diretoria de Paulo Roberto Costa. Ele também negou que tenha conhecido o doleiro Alberto Youssef e o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.

Substituto. O presidente da CPI da Petrobrás, Hugo Motta (PMDB-PB), não participou da sessão desta terça-feira por causa de uma viagem pessoal à Itália. A sessão foi presidida pelo primeiro-vice-presidente da CPI, Antônio Imbassahy (PSDB-BA). Motta retorna ao País na próxima terça-feira, 7, segundo informou sua assessoria. Na mesma data, a CPI deve ouvir o novo diretor de Gás e Energia da estatal, Hugo Repsold.
Tudo o que sabemos sobre:
CPI PetrobrásAbreu e Lima

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.