Ex-gerente da Petrobrás diz que reuniões para dividir propina começaram com Vaccari

Ex-gerente da Petrobrás diz que reuniões para dividir propina começaram com Vaccari

Em depoimento à CPI da estatal na Câmara, Pedro Barusco relata encontros com tesoureiro do PT para tratar do pagamento feito por empresas do cartel a funcionários da petroleira e de agentes partidários

Daiene Cardoso, Daniel Carvalho e Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

10 de março de 2015 | 14h06

Brasília - O ex-gerente-executivo da Diretoria de Serviços da Petrobrás Pedro Barusco disse à CPI da estatal que começou a ter reuniões para tratar do pagamento de propinas de contratos da petroleira com o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Em depoimento à comissão nesta terça-feira, 10, Barusco falou sobre a divisão de valores entre empreiteiras e partidos e citou obras em que houve acordo com empreiteiras. A sessão da CPI ainda está em andamento.

Vaccari é tesoureiro do PT desde 2010. Aos deputados, o ex-gerente disse que não teve contato com Delúbio Soares, ex-tesoureiro petista condenado no julgamento do mensalão, e que não sabe quem fazia a articulação com o partido à época.

Barusco estima que o PT, por meio de Vaccari, tenha recebido de US$ 150 milhões a US$ 200 milhões resultado de acertos feitos com as empreiteiras integrantes do cartel investigado pela Operação Lava Jato. Ele, no entanto, disse não saber se havia outros integrantes do partido que autorizavam a atuação do tesoureiro nem como era feita a distribuição do dinheiro.

O ex-gerente trabalhava ao lado do ex-diretor de Serviços Renato Duque, indicado pelo PT para o cargo. Segundo Barusco, a atuação de um cartel para combinar contratos com a Petrobrás passou a vigorar de forma mais clara em obras da Refinaria Abreu e Lima e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).  

No início do seu depoimento, Barusco afirmou que o pagamento de propina de "forma institucionalizada" começou a partir de 2003 ou 2004, mas que recebeu repasses ilícitos já na década de 1990. "Comecei a receber propina em 1997, 1998. Foi uma iniciativa pessoal minha, junto com um representante comercial da empresa. (...) De forma mais ampla, em contato com outras pessoas da Petrobrás, de forma mais institucionalizada, foi a partir de 2003, 2004. Não sei precisar a data", afirmou o ex-gerente, também delator da Lava Jato. 

Deputados petistas cobraram que o ex-gerente detalhasse o que ocorria na estatal na década de 1990, além de pedir que ele apresentasse provas da atuação de Vaccari. "Eu contei a verdade sobre ele ao Ministério Público, mas não tenho provas", disse Barusco. Aos investigadores da Lava Jato, Vaccari afirmou que os valores recebidos eram doações legais e foram declaradas à Justiça Eleitoral.

Durante o depoimento desta terça, o relator da CPI, Luiz Sérgio (PT-RJ), insistiu para que Barusco detalhasse como era o recebimento de valores na década de 1990. O ex-gerente disse que, na época, ocupava cargo menor na estatal e não fechava contratos nem tinha conhecimento se outras pessoas recebiam propina. O relator, então, perguntou como ele negociava os pagamentos. "Em relação a esse período eu não vou dar mais detalhes porque existe uma operação em curso e eu me reservo o direito de não comentar", respondeu Barusco. 

À Justiça, o ex-gerente já havia admitido ter recebido propina na década de 1990, período do governo Fernando Henrique. Em razão do teor da delação premiada, parlamentares do PT queriam que a CPI investigasse contratos e fatos relacionados à estatal ocorridos durante a gestão FHC. Por decisão do colegiado, no entanto, a comissão investiga o período entre 2005 e 2015, durante governos petistas.

Questionado pelo relator se seria o "pai" da propina na Petrobrás, o ex-gerente riu e negou.

Na sequência, o ex-gerente afirmou que, a partir de 2004, a divisão de valores passou a ser acordada entre nomes da estatal, do PT e de outros partidos, como PP e PMDB, que controlavam outras diretorias da Petrobrás. "Existia uma reserva para o PT receber. Não sei como o Vaccari recebeu", afirmou Barusco.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.