Ex-funcionária complica Valério

Ao depor, Geiza culpa publicitário por emissão de cheques e reserva de dinheiro que teria abastecido esquema

Leonardo Werner, O Estadao de S.Paulo

22 de janeiro de 2008 | 00h00

Em depoimento prestado ontem à tarde à Justiça Federal, Geiza Dias dos Santos, ex-assistente financeira da agência SMPB, atribuiu exclusivamente ao publicitário Marcos Valério as ordens para emissão de cheques e reserva de dinheiro para saques supostamente em favor dos participantes do esquema do mensalão. Interrogada em Belo Horizonte, Geiza integra o grupo de 40 réus no processo criminal que corre no Supremo Tribunal Federal (STF). Ela é acusada de evasão de divisas, formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.Geiza trabalhou por dez anos na agência de Valério e, na sua função, acompanhava saldos bancários, contas a pagar e a receber, pagamento de salários e faturamento da empresa. Sua defesa consistiu em tentar provar que era apenas uma funcionária subalterna, sem autonomia e consciência de que por trás das liberações para pagamento poderia existir um esquema criminoso, como acredita o Ministério Público Federal.No depoimento, Geiza disse que Valério era quem dava as ordens para que os cheques, em nome da SMPB, fossem feitos ou para que ela enviasse e-mails a gerentes de banco para fazer reservas de dinheiro, informando quem iria sacá-lo. A ordem, contou, era não questionar. "Ele falou que eu era paga para fazer, não para pensar."Os diretores da SMPB Cristiano Paz e Ramon Hollerbach nunca deram ordens semelhantes e até estranharam esse tipo de movimentação financeira algumas vezes, segundo Geiza. "Já me perguntaram: ?Que cheque é esse?? Eu respondia que não sabia, que era coisa do Marcos Valério", explicou. Os cheques, acrescentou, começaram a ser emitidos em 2003.Ela disse que nunca sacou dinheiro para entregar a alguém nem remeteu quantias para o exterior - salvo para a inscrição da agência em premiações internacionais. "A minha cliente apenas informava aos bancos o que estava sendo feito, mas não tinha autonomia alguma. Ela cumpria uma ordem que, aparentemente, não era ilegal", declarou o advogado de Geiza, Paulo Sérgio Abreu e Silva.Para Marcelo Leonardo, advogado de Valério, o depoimento da ex-assistente foi coerente com o de seu cliente. Mas criticou o fato de Geiza tê-lo responsabilizado pelos repasses. "Isso foi o que ela falou. Entre os diretores a coisa não era assim."EX-MINISTROO prefeito de Uberaba, Anderson Adauto, ex-ministro dos Transportes do governo Lula, também depôs ontem e negou as acusações de corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Ele confirmou que recebeu R$ 410 mil de Delúbio Soares, então tesoureiro do PT, por causa de dívidas contraídas na campanha de 2002, quando se elegeu deputado federal. Os saques, disse, foram feitos por seu irmão Édson Pereira, e por José Luiz Alves, que era seu assessor.Adauto afirmou que aconselhou, como amigo, o deputado Romeu Queiroz (PTB-MG) a recorrer a Delúbio quando também teve problemas com dívidas de campanha. Delúbio deve depor amanhã na Justiça Federal em São Paulo. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por formação de quadrilha. Segundo a acusação, teria viabilizado o esquema de compra de apoio político do mensalão.Alves foi outro réu a depor ontem em Minas e confirmou ter sacado R$ 200 mil para Adauto. O total, segundo ele, foi pego em quatro ocasiões em dinheiro e o deputado o orientava sobre quais débitos quitar.O ex-assessor contou que era atendido por um funcionário de nome Renato no Banco Rural, que entregava os valores mediante apresentação do documento de identidade. Alves disse acreditar que o dinheiro era da Executiva Nacional do PT e que não havia motivos para pensar em alguma ilicitude.

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