WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Ex-exilado no Chile, Cesar Maia chama de ‘inadmissíveis’ declarações de Bolsonaro

Ex-prefeito do Rio, que vivenciou golpe no Chile, repudia falas do presidente, que defendeu Augusto Pinochet e fez pouco caso da morte do pai de Michelle Bachelet

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2019 | 18h44

RIO – O ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) estava no Chile no dia 11 de setembro de 1973, quando os militares comandados por Augusto Pinochet bombardearam o Palácio da Moneda com o presidente Salvador Allende dentro e tomaram o poder. Exilado político — o Brasil vivia uma ditadura iniciada nove anos antes —, Cesar disse ao Estado que as declarações de hoje do presidente Jair Bolsonaro, que defendeu o golpe chileno, são “inadmissíveis”. 

Foi no exílio que o ex-prefeito viu nascer, em 1970, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que é seu filho. Cesar buscou o país em 1968, ano que marcou o endurecimento da ditadura brasileira. No Chile, presenciou em 1970 a eleição de Allende, que tentaria instaurar um modelo de “socialismo democrático” conhecido como via chilena para o socialismo. 

No Brasil, Cesar Maia era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o ‘Partidão’, e se engajava em prol da redemocratização. Após o golpe de Pinochet, viajou a Portugal, que àquela altura vivia o fim da sua ditadura — dali a menos de um ano aconteceria a Revolução dos Cravos. Voltou ao Brasil em seguida e chegou a ser preso na chegada ao aeroporto, mas o processo a que respondia na Justiça Militar foi arquivado três meses depois por falta de provas. 

Bolsonaro alegou que o país andino, cujo atual presidente, Sebastian Piñera, é seu aliado, escapou de virar uma “nova Cuba” por causa de Pinochet. A declaração se deu num contexto de resposta à ex-presidente chilena Michelle Bachelet, que hoje é alta comissária para os Direitos Humanos da ONU. Ela havia criticado posturas de Bolsonaro e dito que o “espaço democrático” no Brasil estava encolhendo. 

Em resposta, o presidente brasileiro disse que o golpe de Pinochet, considerado o mais cruel ditador do Cone Sul, “deu um basta à esquerda” no país. “Entre esses comunistas o seu pai, brigadeiro à época”, comentou se referindo a Alberto Bachelet. 

O pai dela era general da Força Aérea e se opôs ao golpe. Foi preso três dias depois da queda de Salvador Allende e morreu, ainda no cárcere, em 12 de março de 1974, aos 50 anos.

Em 2012, a Justiça do Chile mandou prender os coronéis Benjamin Cevallos e Ramón Cáceres Jorquera, acusados de torturar e causar a morte do pai de Bachelet. Na ocasião, ela era candidata a presidente. 

Alberto e Michele estão entre as 32 mil pessoas torturadas e presas durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). A apuração dos crimes cometidos pelo Estado chileno durante a ditadura levou a dezenas de condenações e prisões.

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