Ex-embaixadora defende uma relação ‘confiável’

Executiva afirma que EUA aguardam criar diálogo para que Brasil ‘participe de maneira mais intensa na cadeia global’ do setor

Claudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2015 | 22h24

Embaixadora dos Estados Unidos no Brasil de 2002 a 2004, Donna Hrinak diz que a desconfiança que marca a relação bilateral vai além do escândalo provocado pela revelação de que a agência de espionagem americana, a NSA, monitorou comunicações da presidente Dilma Rousseff. “A maioria dos que tomam decisões no Brasil pensa que, se algo é bom para os Estados Unidos, ele deve de alguma forma ser ruim para o Brasil. E para a maioria dos que tomam decisões ou têm influência nos Estados Unidos, o Brasil não é considerado um parceiro confiável”, afirmou Hrinak, representante no Brasil da Boeing, a “empresa mais prejudicada pelo escândalo”. 

Na sua avaliação, o que seria uma visita bem-sucedida?

Nós queremos o Acordo de Cooperação em Defesa e o GSOMIA (Acordo Geral de Segurança de Informação Militar). No Fórum de CEOs, realizado na semana passada em Brasília, houve recomendações para a criação de um diálogo na área de defesa semelhante ao que existe no setor de aviação, que envolva os setores público e privado. 

O que mudará com a ratificação dos dois acordos?

O GSOMIA significa que nós poderemos dar ao Brasil uma gama mais ampla de informações militares. Isso significa que poderemos compartilhar mais tecnologia, o que abre as portas para mais vendas. Há um outro acordo, de salvaguardas tecnológicas, que permite maior cooperação. 

A sra. chegou a dizer que a Boeing foi a grande perdedora do escândalo da NSA.

Acredito que não há nenhuma companhia em nenhum dos lados que tenha perdido um grande contrato como nós perdemos, principalmente em razão das revelações da NSA.

Isso está superado?

Sim. Os Estados Unidos foram adiante dois dias depois e eu temo que não tenham manifestado isso de maneira muito construtiva. E acho que o Brasil está pronto para fazer o mesmo. O Brasil entende que há muitas áreas nas quais o trabalho conjunto pode trazer benefícios para ambos os lados. 

Como a situação atual do País afeta a percepção dos investidores estrangeiros?

Nós (Boeing) estamos no Brasil a longo prazo. A área que estamos expandindo é a de pesquisa e desenvolvimento. Falando com outras pessoas da comunidade empresarial, eu vejo que pesa o fato de o Brasil ter um grande mercado doméstico. Se estão no setor de bens de consumo, eles dizem ‘há dificuldades, mas são 210 milhões de pessoas, eu tenho que estar aqui’. Essas companhias estão adotando uma visão de longo prazo.

A sra. foi embaixadora no Brasil. Qual a importância do País para os Estados Unidos? 

A questão é qual a importância do Brasil para o mundo. Essa é a sétima maior economia do mundo. É um País com 18% das reservas de água doce do planeta. É o primeiro ou seguramente o segundo maior exportador de alimentos. O mundo enfrentará algumas questões críticas nos próximos 30 anos. Se quisermos resolver os problemas de segurança alimentar, energia, mudança climática, o Brasil precisa estar na mesa. Se os EUA querem aliados importantes que serão úteis na promoção de nossas próprias posições, nós temos que trabalhar com o Brasil. 

A relação atual reflete essa posição do Brasil no mundo?

Ainda não, mas está melhor. Na embaixada, nós tínhamos uma proposta de convidar o Brasil para os encontros do G7 ou G8. As pessoas em Washington não tomaram a proposta de maneira séria. Hoje, nós temos o G20 e o Brasil está lá. Há mudanças.

A Boeing será anfitriã do encontro de Dilma com representantes do setor aeroespacial em San Francisco. O que podemos esperar?

Que haja uma discussão aberta sobre inovação aeroespacial e sobre como os países podem se preparar para participar da cadeia de produção e produzir inovação. É algo que Dilma quer. É uma chance de olhar o que é preciso para o Brasil participar de maneira mais intensa na cadeia global de produção desse setor. Tomando o exemplo da Boeing, a cada ano nós compramos US$ 1 bilhão de produtos do México. Do Brasil, é zero. O mais interessante é que o Brasil tem uma indústria aeroespacial, por causa da Embraer, mas, se quiser participar da cadeia global de produção, precisa olhar para outras opções.

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