Ex-diretor do BB depõe e nega acusações do mensalão

Henrique Pizzolato alegou ter feito favor a Valério - acusado de operar o esquema de corrupção

Wilson Tosta, de O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2008 | 19h08

Depois de negar com firmeza todas as acusações de envolvimento com desvio de recursos públicos, o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato teve dificuldades nesta quinta-feira, 14, para explicar por que é acusado de receber R$ 326.660,27 ilegais de Marcos Valério de Souza e como, pouco depois do recebimento, comprou um apartamento por R$ 400 mil. Veja também: Escândalo dos cartões é pior que mensalão, diz Jefferson Ao depor sobre mensalão, Jefferson recusa delação premiada Veja quem são os 40 do mensalão    Em depoimento no processo criminal sobre o mensalão que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), prestado à 7ª Vara Federal Criminal do Rio, o ex-diretor, um dos 40 denunciados no caso, alegou ter feito um favor a Valério - acusado de operar o esquema de corrupção- recebendo dois envelopes, que não abriu, para repassar ao PT. Pressionado pelo juiz Marcelo Granado, porém, admitiu ter pago parte do preço em dinheiro, mas insistiu que era seu. Também queixou-se das acusações.   "Tenho vivido uma situação de Guantánamo há três anos", disse ele, numa referência à prisão que os EUA mantêm em Cuba, para prisioneiros que considera terroristas, não têm os mesmos direitos que os cidadãos americanos e sofrem maus tratos, muitas vezes sem acusação formal. Pizzolato está denunciado pelos crimes de peculato (desvio de dinheiro público por servidor), corrupção passiva e lavagem de dinheiro.   O ex-diretor admitiu ter enviado o contínuo da Previ Eduardo Ferreira a um endereço no Centro do Rio para pegar "documentos para serem repassados ao PT". Segundo sua versão, uma mulher que se identificou como secretária de Marcos Valério, empresário que conhecia em função de seu trabalho na publicidade do BB, telefonou para seu celular e pediu que, como um favor a Valério, pegasse os papéis e os entregasse ao partido.   Pizzolato disse que não poderia fazê-lo, mas prontificou-se a conseguir alguém para a tarefa. Via telefone, conseguiu que Ferreira fosse no endereço indicado. O contínuo entregou-lhe os envelopes em seu apartamento em Copacabana. Mais tarde, um emissário do PT foi pegar a encomenda. O ex-diretor disse que chegou a deixar os dois pacotes no escaninho da portaria do prédio onde mora, para ir almoçar.   "Sinceramente, o senhor não achou estranho?", perguntou o juiz, que também considerou esquisito que uma pessoa identificada apenas como emissário do PT fosse à sua casa e o ex-diretor não temesse ser um truque para assaltá-lo.   "Hoje, se Deus me pedir, não me movo mais, não faço mais nada", disse o réu.   Pizzolato também teve problemas quando o juiz lhe pediu detalhes sobre a compra do imóvel. Inicialmente, garantiu que pagara tudo em cheque, com recursos de aplicação financeira. Quando o procurador José Alfredo de Paula Silva lhe perguntou se pagara o apartamento integralmente em cheque, o ex-diretor disse que, por orientação de seus advogados, não responderia a perguntas do Ministério Público, nem dos advogados dos outros réus. "Então vou perguntar ao senhor: o senhor pagou integralmente em cheque?", perguntou o juiz, surpreendendo-o. Ele então admitiu que pagara R$ 300 mil em cheque do Banco do Brasil e o resto "em espécie", obtidos da venda de moeda estrangeira, cujos comprovantes afirmou ter.   Explicações   Até ter que explicar o suposto pagamento de Marcos Valério e a compra do apartamento, Pizzolato prestara um depoimento marcado por muitas explicações técnicas sobre a área de publicidade do Banco do Brasil e passava confiança. Ele negou ter autorizado adiantamento de recursos da Visanet à DNA, agência de Valério, porque, garantiu, não tinha poder para tanto: a Visanet, alegou, pertence a outras empresas, entre elas a BB Investimentos, que tem diretoria própria.   Com relação aos recursos do BB, Pizzolato insistiu que a Diretoria de Marketing apenas contratava a publicidade, cabendo à Diretoria de Infra-Estrutura os pagamentos e à Diretoria de Controle a fiscalização. Também afirmou que os bônus que, segundo a denúncia, não foram repassados ao Banco do Brasil, pertenciam à agência de publicidade, não ao BB.   Henrique Pizzolato também praticamente retirou tudo o que declarara à CPMI dos Correios, no qual insinuou que o então ministro da secretaria de Comunicação de Governo (Secom), Luiz Gushiken, interferia em decisões de investimentos da Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.   "Na CPMI dos Correios, não tive condições de raciocinar, de pensar, fui coagido, humilhado, fui constantemente achincalhado", disse, afirmando ter sofrido ameaças de prisão e físicas. O ex-diretor encerrou um depoimento com um discurso dizendo-se sentir "inconformidade, revolta, insatisfação" com a forma como foi envolvido, com a forma como sua família foi exposta e com as perdas pessoais e prejuízos materiais que teve. "Fui satanizado em público", bradou.

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