Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Ex-diretor da Saúde nega ter pedido propina e diz que acusação é 'cortina de fumaça'

Roberto Ferreira Dias afirma que oferta de 400 milhões de doses por meio da empresa que se apresentou como intermediária da AstraZeneca era 'improvável', mas a pandemia exigiu que a proposta fosse ouvida  

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 21h28

BRASÍLIA - O ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias negou ter pedido propina para viabilizar a compra de vacinas da AstraZeneca oferecidas pela empresa Davati Medical Supply. 

Em nota divulgada nesta quinta-feira, 1º, Dias afirmou que a oferta de 400 milhões de doses por meio da empresa que se apresentou como intermediária da farmacêutica era "improvável". Mesmo assim, a pandemia exigiu que a proposta fosse ouvida. 

Na manifestação, a primeira desde que foi alvo de acusações, Dias sugere que está sendo usado como "cortina de fumaça" e como "fantoche". Ele foi exonerado na terça-feira, 29.

"Histórias como a do Sr. Dominguetti aparecem com frequência. Que fulano tem respiradores, vacinas, testes, luvas, etc. A primeira tarefa, que a pandemia nos exige, é ouvir. Ele disse que tinha 400.000.000,00 (quatrocentos milhões) de doses, o que evidentemente era uma quantidade muito improvável de estar a disposição naquele momento", frisa, na nota.

O policial militar de Minas Gerais, da ativa, Luiz Paulo Dominguetti afirma que, durante um jantar em 25 de fevereiro, Dias disse que a continuidade da negociação dependia do pagamento de US$ 1 de propina por dose. Apesar de não ter vínculo formal e a função militar vedar a atuação, ele trabalhava, segundo a Davati, como representante da empresa.

Na nota, Dias afirma que todas as comunicações anteriores com a Davati foram feitas com o CEO, Cristiano Alberto Carvalho. Segundo ele, a primeira troca de e-mails foi em 22 de fevereiro e a proposta chegou apenas três dias depois.

O ex-diretor narra que solicitou carta da AstraZeneca que confirmava a Davati como representante oficial e o documento nunca chegou. "Tão descabida era a proposta que não houve prosseguimento por nenhuma área do Ministério. Destaco que nunca houve negociação, mas sim pedidos de documentos necessários, conforme mostra a troca de e-mails", diz.

Nomeado para o cargo ainda em janeiro de 2019, Roberto Dias acredita que as requisições que fez impediu a empresa de conquistar uma carta de intenções do governo brasileiro que serviria como "passaporte" para a firma abrir negociações com fornecedores em nome do governo brasileiro.

"Em virtude da inexistência das documentações necessárias e jamais apresentadas, seria impossível a abertura de um processo. Por tais razões, acredito estar sendo vítima de retaliações por parte do Sr. Dominguetti", escreveu.

Ex-chefe da área responsável por algumas das principais compras do ministério, ele declarou, ainda, que não conhecia Dominguetti e que não o chamou para jantar. Na nota, diz que o intermediário da Davati foi levado ao restaurante pelo tenente-coronel Marcelo Blanco, assessor especial do Departamento de Logística.

"Preciso saber qual a motivação desse senhor para nesse momento vir contar essa história absurda. Quem ele quer atingir ou proteger? Estou sendo usado de fantoche para algo?", disse. "É importante frisar que ao contrário do que é alegado pelo Dominguetti, o tema propina, pedido de dinheiro, facilitação... NUNCA foi tratado a mesa ou em qualquer outro ambiente em que eu estive presente".

Roberto Dias também é apontado pelo servidor Luis Ricardo Miranda como um dos superiores que exerceram pressão para que fosse agilizado o processo de importação de outra vacina, a Covaxin, da Índia, mesmo com inconsistências nos processos internos.

"Acredito que ele tenha se equivocado ou, intencionalmente direcionado a minha pessoa. Mostrarei perante a Comissão Parlamentar de Inquérito toda a linha de conversa que tive com ele e todos saberão o que realmente aconteceu. O verdadeiro bastidor! O fato é que, manifestamente, existem terceiros interessados...", finaliza.

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