Ex-diretor da Petrobrás diz em sessão da CPI que corrupção é generalizada

Ex-diretor da Petrobrás diz em sessão da CPI que corrupção é generalizada

Paulo Roberto Costa afirma que esquemas de desvios existem em obras de todos os setores do governo, declara que indicações políticas na estatal vêm desde Sarney e confirma tudo o que disse em depoimentos da delação premiada

FÁBIO BRANDT, RICARDO BRITO E ISADORA PERON, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2014 | 02h03

BRASÍLIA - O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmou ontem na CPI mista da estatal que esquemas de desvios de verba pública são generalizados no País e atingem obras de "rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e hidrelétricas". "É só pesquisar", disse o homem que é apontado como uma das principais peças do esquema que abastecia partidos políticos a partir de verbas superfaturadas de contratos fechados entre empreiteiras e a Petrobrás.

Costa surpreendeu a todos ao decidir falar na CPI mista, à qual ele já havia comparecido e permanecido calado em setembro. O ex-diretor, que fez uma delação premiada a partir da qual tem revelado o que sabe em troca de redução de sua pena, afirmou ainda que pode provar tudo o que vem dizendo nos depoimentos ao Ministério Público e à Polícia Federal. Nesses relatos, Costa citou parlamentares que teriam recebido dinheiro desviado da estatal. Ontem, disse que os beneficiados chegam a "algumas dezenas".

Acareação. Costa estava diante de Nestor Cerveró, numa acareação na qual o ex-diretor da área de Internacional negou ter qualquer conhecimento de corrupção na estatal. Enquanto Cerveró negava ter ciência dos desvios, o ex-diretor de Abastecimento acusava o antigo colega de estatal e afirmava: "Desde o governo Sarney, governo Collor, governo Itamar, governo Fernando Henrique, governo Lula, governo Dilma, todos os diretores da Petrobrás e diretores de outras empresas, se não tivessem apoio político, não chegavam a diretor!"

Às vezes exaltado, Costa fazia desabafos: "Me arrependo amargamente, porque estou sofrendo isso na carne, estou fazendo minha família sofrer -, infelizmente, aceitei uma indicação política para assumir a Diretoria de Abastecimento. Estou extremamente arrependido de ter feito isso!"

Costa não citou nomes de pessoas ou de empresas nem valores à CPI mista. Ele se limitou a dizer que já deu todos esses detalhes sobre o funcionamento do esquema em sua delação, em "80 depoimentos" - esses depoimentos são sigilosos, razão pela qual seu conteúdo não poderia ser repetido no Congresso.

Alguns trechos de respostas dadas por Costa às autoridades já estão públicos porque foram incluídos em documentos abertos do processo decorrente da Operação Lava Jato - nome dado pela Polícia Federal às investigações que expuseram o escândalo relacionado à Petrobrás. "Tinha um porcentual desses contratos da área de Abastecimento, dos 3%, 2% eram para atender ao PT", afirmou ele em uma das oitivas da Justiça.

Ainda no depoimento de ontem, Costa confirmou ter enviado um e-mail em 2009 para a Casa Civil, então comandada pela hoje presidente da República, Dilma Rousseff, no qual citava obras contestadas pelo Tribunal de Contas da União. Ele classificou o e-mail como uma comunicação formal sobre o andamento do processo no TCU.

Disputa. As declarações de Costa foram potencializadas por uma desarticulação da base aliada durante a sessão da CPI.

Os principais líderes do PT na Câmara e do Senado não estiveram presentes à reunião na maior parte do depoimento. Integrantes do aliado PMDB - outro partido que está na mira das acusações de Costa - tampouco acompanharam a sessão.

A defesa do governo Dilma Rousseff ficou por conta quase exclusivamente do deputado Sibá Machado (PT-AC). O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) foi protagonista dos questionamentos da oposição.

O QUE PAULO ROBERTO COSTA JÁ FALOU NA DELAÇÃO E À JUSTIÇA

Loteamento na estatal

À Justiça Federal no Paraná, detalhou esquema de loteamento nas diretorias da Petrobrás por partidos políticos - PT, PMDB e PP. Os partidos recebiam até 3% dos valores dos contratos.

Dezenas de parlamentares

Citou na delação 32 parlamentares, governadores, ex-governadores e um ministro - a maior parte dos nomes está sob sigilo.

Senador do PMDB

Também na delação, citou Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, ao relatar um acerto com o doleiro Alberto Youssef envolvendo um fundo de pensão.

Senador do PSDB

Disse na delação que o então presidente do PSDB, Sergio Guerra, o procurou em 2010 e cobrou R$ 10 milhões para encerrar uma CPI da estatal aberta no Senado.

Governador do PSB

Afirmou na delação que repassou em 2010 R$ 20 milhões para a campanha de Eduardo Campos ao governo de Pernambuco.

Senadores do PT

Na delação disse que em 2010 repassou R$ 1 milhão para a campanha ao Senado da petista Gleisi Hoffmann e R$ 1 milhão para o petista Humberto Costa para sua campanha também em 2010.

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