Ex-deputado usa ''sobra'' para dar viagens a eleitores

Após fim do mandato, Almeida de Jesus emitiu 81 passagens, das quais 79 foram repassadas a terceiros

Marcelo de Moraes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

29 de abril de 2009 | 00h00

Mesmo com o mandato encerrado em janeiro de 2008, o ex-deputado federal Almeida de Jesus (PR-CE) ainda usou seu crédito com a cota de passagens da Câmara para emitir 81 bilhetes aéreos. Desses voos, apenas dois foram feitos pelo próprio parlamentar.O ex-deputado acabou distribuindo viagens entre pessoas que precisavam se deslocar do Ceará, seu Estado de origem, para Brasília ou São Paulo em busca de tratamento médico ou de algum estágio profissional. Na prática, um atendimento político para seus eleitores, embora Almeida de Jesus não veja problema nisso."Eu repassava a passagem para quem me procurava no Estado, precisando fazer uma viagem. Gente que precisava ir a um hospital em Brasília, um estudante que precisava buscar estágio em São Paulo. Eu tinha os créditos acumulados e as regras da Câmara permitiam isso. Não fiz nada de ilegal", afirmou ele ao Estado.POUPANÇASegundo levantamento feito pelo site Congresso em Foco, 117 ex-deputados usaram o mesmo sistema, mas Almeida de Jesus foi o campeão nesse ranking.Emitir passagens pagas pelo Congresso mesmo depois de o mandato ter sido concluído só foi possível porque os créditos são contabilizados em nome dos deputados. Assim, eles podem continuar emitindo passagens no tempo em que quiserem, desde que ainda possuam saldo.Almeida de Jesus afirma que fez uma espécie de poupança desses créditos ao utilizar sempre voos em horários pouco procurados, o que barateava as passagens. "Tinha voos em que as passagens custavam R$ 600, R$ 800, em horários melhores, e eu não usava. Pegava voos de madrugada, por R$ 300, para poder acumular esses créditos e distribuir passagens para quem precisava", disse.No fim do mandato, como não tentou se reeleger, Almeida de Jesus entendeu que poderia continuar gastando os créditos que tinham sobrado. "O crédito sai no nome do deputado. Se houve erro, era do sistema que existia", avalia.MOVIMENTOMas, na visão do ex-parlamentar, são exageradas as críticas contra a chamada "farra das passagens", com o repasse de bilhetes pagos pela Câmara para parentes de deputados e terceiros. Almeida de Jesus acredita que exista um "movimento orquestrado" para desestabilizar o Congresso com essa campanha."Tenho quase certeza de que isso é uma coisa orquestrada para que o Congresso perca sua credibilidade. Infelizmente, vejo que o Congresso está frouxo, acuado e não reage. Não foi feito nada de ilegal."Não é a primeira vez que Almeida se vê envolvido numa confusão política por conta de suas atividades no Congresso. Em 2006, ele e outros 71 parlamentares foram denunciados na Câmara pela suposta participação no esquema de compra irregular de ambulâncias para pequenos municípios, no chamado escândalo dos sanguessugas. Almeida de Jesus foi absolvido na Câmara, mas a investigação ainda continua correndo no Ministério Público."O processo só acabou na Câmara. Mas, fora dali, ainda continua essa confusão que só me trouxe aborrecimento", reclama. Escaldado pelos efeitos do problema, garante que manterá distância do Congresso. "Virar deputado outra vez? Deus me livre. Não volto mais. Se fora estou levando cacete, imagina como parlamentar."

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