Ex-deputado João Paulo Cunha vê 'tentativa de punir PT por caixa 1'

Prestes a lançar o livro Quatro & outras lembranças, com poemas escritos na prisão, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha vê com angústia os rumos do governo, que chama de "bipolar", e a encruzilhada do PT, em meio à crise política e ao escândalo da Petrobrás.

VERA ROSA, Estadão Conteúdo

02 Abril 2015 | 10h05

"O PT será sempre condenado, por ter cachorro e por não ter cachorro. No caso do mensalão, o PT foi condenado por ter feito caixa 2. Agora, no caso da Petrobras, tentam condená-lo por fazer caixa 1", disse João Paulo ao jornal O Estado de S. Paulo, na primeira entrevista exclusiva após deixar o cárcere. Condenado a 6 anos e 4 meses de prisão por corrupção passiva e peculato no processo do mensalão, o petista cumpre pena em regime aberto desde fevereiro e cursa o 5º ano de Direito.

Na entrevista concedida no escritório de advocacia onde trabalha, João Paulo resistiu o quanto pôde a entrar na seara política e só queria falar do livro, que será lançado na terça-feira, 7, em Brasília. Uma prosa aqui e outra ali, porém, e ele se rendeu. "A minha impressão, aqui de fora, é a de que o governo tem um comportamento bipolar", afirmou. "Às vezes, faz tempestade em copo d?água. Outras vezes, diante de uma grande tempestade, pensa que é uma garoa."

Por que Cunha decidiu escrever poemas enquanto estava na prisão? Ele diz que foi uma forma de extravasar o sentimento. Contou ter escrito outras coisas também, tudo a mão. Ter lido quase 60 livros e feito resenha de 21, publicado numa seção do meu blog chamada Janelas do Cárcere. A editora (Topbooks) se interessou mais pelos poemas. "É o primeiro livro que vou publicar, mas haverá outros", conta.

Questionado sobre se o livro continha poemas políticos, Cunha explica que o nome Quatro é uma referência ao dia em que foi preso, 4 de fevereiro (de 2014). "Foi um choque não ter a chave da porta que me permitiria entrar e sair". E que, assim, a leitura e a escrita lhe permitiram andar e viajar por outros lugares e realidades. "A partir desse Quatro pensei ''quatro músicas, quatro beijos, quatro suicidas, quatro peças de roupas, quatro linhas das mãos''.

Em relação a eventuais erros cometidos e a um possível mea-culpa na prisão, Cunha diz que os erros políticos que cometemos são passíveis de conserto. Do ponto de vista do processo propriamente dito, afirmou que não há mea-culpa porque não há crime cometido. Disse ter sido condenado injustamente. "Isso não se confunde com as ações e o desenvolvimento da prática política do partido", avalia.

Perguntado se a atual crise, agravada com o escândalo dos desvios de recursos da Petrobrás seria pior do que o mensalão para o governo do PT, o ex-deputado fala que a história se repete e coloca ao PT um drama. O drama de que o PT será sempre condenado, por ter cachorro e por não ter cachorro. No caso do mensalão, o PT foi condenado por ter feito caixa 2. E agora, tentam condená-lo por fazer caixa 1.

Lembrado pela reportagem de que há quem diga que a apuração na Petrobras tornou o mensalão "fichinha" em irregularidades, Cunha diz que, no caso do mensalão, a história reporá a injustiça. Aquele comentário de que foi o maior escândalo político da história do Brasil é bobagem. Será que foi maior do que a privatização? Claro que não. Entregaram a Vale do Rio Doce por um valor de quitanda... (O mensalão) Foi o maior escândalo econômico? Estamos vendo que não. Só um cara da Petrobras (Pedro Barusco, ex-gerente) devolveu duas vezes mais do que o mensalão todo. (O mensalão) foi um ponto de divisão na disputa política. Foi um erro político do PT, mas não foi o que falaram. Não acharam uma fazenda, uma conta no exterior, um carro importado. Não tem acusação de enriquecimento pessoal, porque não era isso. Para pagar a dívida de R$ 536 mil (imposta pela Justiça, como ressarcimento de recursos que teriam sido desviados), eu hipotequei minha casa, em Osasco, junto ao Bradesco."

O jornal quer saber quem seria o responsável pela crise de hoje: Dilma, o PT, o PMDB, a economia ou tudo isso. Cunha diz que a estrutura de governo de coalizão foi mal estabelecida e a percepção do resultado eleitoral não foi adequadamente compreendida para dela se tirar as ações do governo. Minha impressão aqui de fora é a de que o governo tem um comportamento bipolar. Às vezes faz tempestade num copo d?água. Outras vezes, diante de uma grande tempestade, não sabe usar as ferramentas para enfrentá-la. Pensa que é uma garoa. Mas não quero falar de governo e de política...

Mas a quem estaria Cunha se referindo ao falareferindo quando fala em governo bipolar? "Por exemplo, nessa lei que trata da renegociação das dívidas de Estados e municípios. Se de fato ela criava problema para o ajuste fiscal, por que o governo não alertou prefeitos e governadores antes, restabelecendo nova base de negociação? Além disso, se foi aprovada no Congresso uma nova lei com regras mais duras para a incorporação de partidos, por que demorar tanto para promulgar?", diz.

Questionado sobre se o governo erra com o PMDB, Cunha diz que, após a eleição, o governo tinha de ter percebido o papel que o PMDB teve e tem, do ponto de vista institucional, para ver como deveria ser sua relação. "Não sei se errou, se acertou, mas (o governo) sempre tem de tomar cuidado aí." Deveria então o PT fazer uma autocrítica, pergunta o jornal.

"O PT precisa se renovar, estabelecer uma nova base doutrinária. Não só por causa dos escândalos e dos pseudoescândalos, mas porque o Brasil é outro. Temos 40 milhões de brasileiros que ascenderam na vida, nos últimos dez anos, são atendidos do ponto de vista material, mas esperam mais. Como desenvolver uma política para isso? Há um divórcio, hoje, entre a prática política, a organização partidária, as nossas bancadas e o que muitas pessoas almejam. Nesse momento é importante ter unidade, inclusive deixando que oportunistas e pragmáticos saiam. Fica quem pensa assim e vamos ver o que vai acontecer.", diz.

Perguntado se seria a favor da saída do tesoureiro do PT, João Vaccari, que é réu em ação ligada aos desvios na Petrobras, Cunha recolhe-se em copas: Ai, meu Deus... Vamos voltar a falar do livro, vai... As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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