Ex-deputado cita propina para Dornelles em CPI

Pedro Corrêa diz em delação que governador interino do Rio recebeu R$ 9 mi para abafar comissão que investigou Petrobrás em 2009; ele classificou afirmação de ‘absurda’

O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2016 | 07h28

O ex-deputado federal Pedro Corrêa (PP-PE) afirmou no anexo 8 de sua delação premiada que o governador interino do Rio de Janeiro Francisco Dornelles (PP) recebeu R$ 9 milhões para abafar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobrás, aberta em 2009 pelo Senado. Corrêa disse que o dinheiro foi entregue pelo então presidente da empreiteira Queiroz Galvão, Ildefonso Colares Filho.

Em nota, o governador interino afirmou ao Estado que “não comenta declarações absurdas e ridículas feitas no âmbito de delação premiada”. O delator contou ainda que, na época, tentou confirmar com Dornelles o recebimento da propina, mas o senador negou “veementemente” ter recebido o dinheiro.

Corrêa só teria confirmado o pagamento quando estava preso no Complexo Médico de Pinhais, no Paraná, durante a Operação Lava Jato. Ali, Renato Duque, ex-diretor de serviços da Petrobrás, disse que o pagamento foi feito pela Queiroz Galvão por determinação de sua diretoria.

No tempo da CPI da Petrobrás, Dornelles era senador (PP-RJ). De acordo com o delator, o Partido Progressista “tinha um acerto coma Queiroz Galvão, no valor de R$ 37 milhões de propina para a construção da Refinaria Abreu Lima (Renest)”. Corrêa afirmou que o trato lhe foi confirmado pelo ex-diretor da Queiroz Galvão, Othon Zanóide Moraes Filho durante uma conversa que contou com a presença do doleiro Alberto Youssef – também delator na Lava Jato –, ocorrida no escritório da empresa, no Rio.

Corrêa fez as afirmações durante as tratativas para fechar um acordo de delação premiada na Lava Jato – a proposta está nas mãos do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), aguardando homologação. O ex-deputado foi condenado a 20 anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro. Também foi condenado pelo STF a 7 anos e 2 meses de prisão no mensalão.

Tucanos e petista. De acordo com o delator, Othon e Ildefonso teriam relatado a Corrêa que haviam entregue R$ 10 milhões ao senador Sérgio Guerra (PSDB-PE). Esse dinheiro também teria saído da cota de R$ 37 milhões destinados ao PP por determinação do então diretor de abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa – também delator na Lava Jato. Segundo Corrêa, Othon disse que o dinheiro havia sido entregue aos políticos pelo “operador Fernando Soares, o Fernando Baiano”, outro delator da Lava Jato.

Em sua delação, Corrêa disse que, após confirmar o pagamento com os empreiteiros, procurou o senador tucano – morto em 2014 – e este lhe teria confirmado o pagamento da propina. Guerra teria ainda dito que parte desse dinheiro foi repassada aos senadores Álvaro Dias (então no PSDB e hoje no PV-PR) e Aloizio Mercadante (PT-SP).

Corrêa disse à Lava Jato que “não costumava procurar diretamente empresários para receber propinas, já que em janeiro de 2003 foi realizada uma reunião da bancada do PP, presidida pelo então deputado Delfim Netto, na qual ficou acertado que apenas o deputado José Janene (morto em 2010) tinha a autorização da bancada para ser o único interlocutor entre os empresários que pagavam propina”. Corrêa disse que qualquer deputado que fosse procurar diretamente um empresário estaria fora do “acerto da bancada”.

“Contudo, como a Queiroz Galvão era uma empresa cujos donos eram pernambucanos, os quais mantinham uma relação pessoal com o colaborador, ele era a única pessoa na empresa com relação à qual José Janene pedia ajuda ao colaborador para tratar do recebimento de propina”, explicou Corrêa.

Defesas. Dias disse que “essa calúnia é vingança contra quem foi uma dos primeiros a denunciar a adotar providências contra a corrupção na Petrobrás.” Ex-ministro de Dilma Rousseff, Mercadante afirmou que nunca teve relação com Corrêa. Sobre CPI de 2009, disse que “sempre se posicionou contra a instalação da mesma e não assinou o pedido de abertura da CPI”. Disse que não foi membro da comissão. “A suposta ilação é o mais completo absurdo.” Delfim disse que “nunca participou de reunião do PP nem com nenhum parlamentar do partido”.

A Queiroz Galvão informou desconhecer “o teor do depoimento e não comenta investigações em andamento”. O Estado procurou o PSDB, mas o partido não se manifestou. As defesas de Ildefonso e Othon não foram localizadas. / RICARDO BRANDT, FAUSTO MACEDO, JULIA AFFONSO, MATEUS COUTINHO, VALMAR HUPSEL FILHO, ROBERTA BARBIERI e MARCELO GODOY

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