Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Precursor do ambientalismo, ex-deputado Alfredo Sirkis morre aos 69 anos em acidente de carro

Um dos fundadores do Partido Verde, ele se notabilizou na luta pelas causas ambientais

Wilson Tosta e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2020 | 18h43
Atualizado 11 de julho de 2020 | 20h25

RIO - Um dos veteranos da resistência armada ao regime militar e precursor do ambientalismo no País, o jornalista, escritor e Alfredo Sirkis morreu nesta sexta-feira, 10, em acidente automobilístico em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O carro em que estava, um VW Polo, desgovernou-se, perto do Arco Metropolitano, bateu em um poste e capotou, no início da tarde.

O ativista ambiental, que foi fundador do Partido Verde, vereador e deputado federal, morreu no local, aos 69 anos. Escrevera recentemente um novo livro: Descarbonário, um trocadilho com o título de outra obra de sua autoria, Os Carbonários - Memórias da Guerrilha Perdida. Nesta, relatou, nos anos 80, sua experiência na guerrilha urbana e na clandestinidade, na década anterior.

O título do último livro do escritor diz muito da sua trajetória política, que alternou posições políticas. Alfredo Hélio Sirkis, filho brasileiro de pais poloneses, foi da Geração 68 brasileira, mas, curiosamente, começou a se politizar no lacerdismo, aos 14 anos. No golpe de 64, quis "defender o (Carlos) Lacerda", governador udenista pró-golpe, que se entrincheirara no Palácio Guanabara.

Aderiu à esquerda um pouco mais tarde, no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se tornou militante estudantil. Participou de passeatas, caiu na clandestinidade e, com menos de 20 anos, participou de ações armadas, inclusive dois sequestros de diplomatas.

Sirkis integrou os comandos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que sequestraram em  1970 os embaixadores Ehrenfried von Holleben (Alemanha Ocidental) e Giovanni Enrico Bucher (Suíça) – este chefiado pelo ex-capitão Carlos Lamarca. Em troca, foram libertados 110 presos políticos, banidos do Brasil. Em 1971, diante do fracasso da luta armada, destroçada pela repressão que levava a sucessivas quedas de guerrilheiros, Sirkis desistiu das armas e deixou o País. Rigoroso com regras de segurança, nunca fora preso, durante a clandestinidade, embora tenha ficado perto disso.

Morou na França, no Chile, na Argentina e em Portugal. Começou sua  carreira de jornalista em 1972, em Paris, no jornal Libération, fundado por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Foi correspondente no Chile na época do golpe que derrubou Salvador Allende e  na Argentina. Depois de residir em Portugal, retornou ao Brasil, com a anistia de 1979.

Voltou mudado e mais moderado, próximo de Leonel Brizola e de seu projeto – posteriormente fracassado – de refundar o PTB como partido socialista, mas também preocupado com questões ambientais e de comportamento,típicas da esquerda europeia. Trabalhou como repórter nas revistas Veja e IstoÉ e foi colunista do Jornal do Brasil. Escreveu dez livros, além de roteiros para a série Teletema da TV Globo e colaborações para os jornais Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e O Globo.

Na política, foi fundador do Partido Verde com Carlos Minc e Fernando Gabeira, nos anos 80, elegeu-se vereador quatro vezes, foi secretário municipal de Meio Ambiente (1993-1996) e de Urbanismo (2001-2006) nas gestões de Cesar Maia (DEM) na prefeitura do Rio. Também foi deputado federal, de 2011 a 2014, tendo presidido a Comissão Mista de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional.

Presidente do PV de 1991 a 1998, ano em que foi candidato do partido à Presidência – teve pouco mais de 200 mil votos, 0,31% do total – Sirkis não quis se candidatar à reeleição à Câmara, por dificuldades políticas. Deixou a política partidária para atuar na sociedade civil. Dirigiu  o Centro Brasil no Clima (CBC) e representou no Brasil o Climate Reality Project do ex-vice presidente norte-americano Al Gore.

Precursor do ambientalismo

Sirkis foi um dos precurssores da causa ambiental no Brasil e se notabilizou nos últimos anos principalmente ao combate às mudanças climáticas. Como deputado federal, presidiu a Comissão Mista de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional. Em 2016, assumiu o cargo de secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Atuante nas conferências da ONU sobre o clima, sempre foi forte defensor da criação de formas de "precificar" o carbono como forma de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no mundo.

Desde que saiu do fórum, em maio do ano passado, exonerado pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, iniciou uma jornada de trabalhO com governadores de todo o País para que eles assumissem a luta nacional contra as mudanças climáticas, depois de que o tema foi deixado de lado pelo governo federal. Sirkis tinha a esperança de que a pauta fosse encabeçada pelos governos subnacionais assim como ocorreu nos Estados Unidos depois que Donald Trump assumiu a presidência.  

No início de julho, ele lançou o livro Descarbonário, onde tratou da importância de reduzir as emissões de gás carbônico no mundo como forma de desacelerar as mudanças climáticas, dinamizar a economia e gerar emprego.

O título foi uma brincadeira com seu livro mais famoso – Os Carbonários –, lançado no início dos anos 1980, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti, em 1981. Na obra de 40 anos atrás, ele fez um relato sobre a geração que enfrentou a ditadura entre 1967 e 1971.

Em Descarbonário, por quase 500 páginas ele usa a questão climática como fio condutor para abordar também temas como drogas, milícias, corrupção, ascensão e queda da esquerda, ressurgimento e vitória da extrema-direita e a sobrevida do que ele chama de duas “vacas sagradas” da economia brasileira: o petróleo e o boi.

"Sirkis era literalmente um ser solar. Sua capacidade de pensar o Brasil e os problemas globais era 'renovável' e suas análises sempre muito acima da média. Tinha uma mente afiada e um grande coração. Foi político, escritor, skatista, ativista, ambientalista, tudo ao mesmo tempo", afirma a ambientalista Natalie Unterstell, que trabalhou com ele no Fórum Brasileiro de Mudança do Clima.

"Conduzimos um processo que envolveu 650 organizações em torno de detalhar a implementação do compromisso brasileiro junto ao Acordo de Paris. Sirkis pensava o Brasil e o mundo como se já vivesse no futuro. Deixa um grande legado: deu à política climática mais densidade perante à sociedade e aos governos estaduais, através do trabalho no Fórum e no Centro Brasil no Clima; deu ao mundo uma proposta de precificação positiva de carbono que ainda há de se realizar."

Ela afirma ainda que ele "tinha uma habilidade política incrível: conseguia conversar com Deus e todo mundo. Conseguia inclusive ser bem recebido por Bolsonaro." 

Ana Toni, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade, também lembrou a importância de Sirkis para o movimento ambientalista. "O Sirkis foi fundamental para a agenda ambiental e climática brasileira. Sua vida foi pautada por angariar pessoas improváveis e até céticos para esta importante luta. Um guerreiro climático!”, diz.

O Observatório do Clima, rede de mais de de 50 ONGs brasileiras, disse, em uma nota de pesar. "Sua trajetória, de combatente da ditadura militar a ativista climático – ou, como ele gostava de dizer, 'de carbonário a descarbonário' – sempre será uma inspiração para o movimento ambiental. E torna-se ainda mais importante agora, quando o Brasil precisa mais uma vez exorcizar o autoritarismo e lutar pela sustentabilidade."

Para a organização, Sirkis "deixa legados gigantescos na literatura, como escritor premiado; na política partidária, como cofundador do Partido Verde e um dos mais atuantes deputados ambientalistas da história do Congresso Nacional; e na luta contra a crise do clima, com a inserção da 'precificação positiva' do carbono, que ele chamava de 'minha obsessão', no texto do Acordo de Paris".

"A morte de Alfredo Sirkis deixa o Brasil menor. Ele criou o PV, e seu trabalho pela preservação do nosso meio ambiente foi fundamental", disse José Luiz Penna, presidente nacional do PV, partido que Sirkis deixara em 2013, por divergências políticas.

"Sirkis era um quadro de formação múltipla: ambientalista, político, escritor e gestor. É uma perda enorme!", lamentou em nota o ex-prefeito e vereador Cesar Maia.

"Dia triste para quem luta pela democracia e pelo meio ambiente", afirmou o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), no Twitter. " "Foi meu colega na Câmara e de diferentes lutas políticas no Rio. Cruzávamos ideias, um defensor ferrenho do meio ambiente", resumiu na rede social a deputada federal Jandira Feghali (PC do B-RJ).

Trecho do livro: A experiência com Bolsonaro

Em Descarbonário, Sirkis contou um pouco da sua experiência, na Câmara, com o hoje presidente Jair Bolsonaro, quando ambos eram deputados federais:

"Ocasionalmente, eu discutia suas fobias comportamentais, tentando puxar para o factual, sem aquele furor dos colegas de esquerda e extrema-esquerda com os quais ele ardilosamente contracenava. Eu preferia o humor, como em outra ocasião, na Comissão, em que ele criticou:

– O Sirkis se diz ecologista, mas ignora o maior problema ecológico da humanidade.

– Jair, qual é, então, o maior problema ecológico da humanidade? – perguntei.

Ele sentenciou:

– A superpopulação.

– Mas, Jair, você acaba de me dar um grande argumento em prol do casamento gay!

Gargalhada geral na comissão. Ele também riu.

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