Ex-chanceler fala em ´lavagem cerebral´ no Itamaraty

O ex-ministro de Relações Exteriores Celso Lafer, que ocupou o cargo no governo Fernando Henrique Cardoso, disse na terça-feira que concorda com todas as críticas feitas pelo ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos Roberto Abdenur ao modo como o governo vem conduzindo a política externa. "Partilho inteiramente de suas impressões", disse Lafer. "Coisas como essa indicação de livros a serem lidos, por diplomatas de ótima formação, são simplesmente vexatórias. O que Abdenur quer ressaltar é uma certa lavagem cerebral. Uma coisa muito ruim, que resulta numa diplomacia de qualidade discutível". Em entrevista à revista Veja, Abdenur, que até recentemente era grande amigo do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, havia denunciado "um elemento ideológico muito forte" e "um antiamericanismo atrasado" na atual diplomacia. Também achou "um erro ter incorporado a Venezuela de chofre no Mercosul". Essa última decisão, para Lafer, "é coisa gravíssima", que "põe em questão 20 anos de esforços da diplomacia brasileira". Grande parte das críticas feitas por Abdenur - principalmente à estratégia Sul-Sul, que prioriza as relações com nações em desenvolvimento - já vem sendo feita também por outros embaixadores. Dois deles, Sérgio Amaral e Rubens Barbosa, em um recente seminário em São Paulo, fizeram fortes críticas à ênfase excessiva dada pelo governo Lula ao comércio com potências emergentes. Um terceiro diplomata, o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia, tem criticado duramente o que considera descaso do atual governo pelo interesse nacional nas relações com a Venezuela. Em Brasília, as críticas de Abdenur endossadas por Lafer - que é antigo desafeto de Amorim - parecem incomodar o Itamaraty. A ordem é nada comentar, mas assessores próximos a Amorim consideram descabidas as afirmações de Lafer. E quanto aos livros "indicados" aos diplomatas, um desses assessores diz que um deles é uma biografia de Ruy Barbosa, o patrono da carreira. Ele pergunta: "Isso é ideologia?". Sabe-se, porém, que a simples obrigatoriedade das leituras irrita muitos dos diplomatas. Em Brasília e Washington, onde Abdenur atuou quatro anos, as críticas ao Itamaraty não chegaram a surpreender. Ficou evidente para muitos diplomatas que o esforço do embaixador para melhorar as relações com os EUA parava sempre no desinteresse brasileiro. Em meados de 2005, já desalentado, Abdenur criticou, em São Paulo, a decisão de reconhecer a China como economia de mercado. A crítica irritou Amorim, que lhe mandou um telegrama reservado pedindo que se retratasse. Ele recusou e o texto dessa recusa circulou entre diplomatas em Brasília. O rompimento tornou-se inevitável. Colaborou Tânia Monteiro

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