José Lucena/Futura Press
José Lucena/Futura Press

Ex-assessor de Cabral confirma repasse para ex-secretário

Wagner Jordão confirma a juiz existência de 'taxa de oxigênio' em esquema de distribuição de propinas

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2017 | 15h03

RIO - O ex-assessor do governo de Sérgio Cabral Wagner Jordão reconheceu que repassou envelopes com dinheiro de empreiteiras para o ex-secretário de obras Hudson Braga. Jordão confirmou a existência da "taxa de oxigênio" no esquema de distribuição de propinas, em depoimento nesta quinta-feira, 4, ao juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal Criminal, no Rio de Janeiro.

O ex-assessor argumentou que os envelopes eram lacrados, por isso não sabia do conteúdo, imaginava que tratava-se de projetos, até que em meados de 2011 descobriu por meio de um e-mail que era propina, a taxa de oxigênio de 1% destinada a Braga.

No depoimento, ele afirmou que não contou a ninguém e que tratou de tentar deixar o cargo, tendo realizado pelo menos mais duas entregas depois da revelação. Jordão lembrou ainda de uma ocasião em que Braga teria pedido que levasse cinco caixas de vinho até a casa dele e suspeitou que havia dinheiro dentro das embalagens em vez da bebida.

"Não fazia barulho de garrafa. Até o porteiro falou 'ah seu Jordão, eles estão até bem amarradinhos, porque nem barulho de garrafa faz'. Então entreguei, botei dentro do quarto dele, que a esposa dele me levou. Ali também acho que não era vinho", relatou. Jordão trabalhou na gestão de Anthony Garotinho no Estado e voltou ao governo em 2007, como assessor da vice-governadoria no gabinete de Pezão, então vice-governador e secretário de Obras, onde Braga era subsecretário executivo.

Jordão foi preso em 17 de novembro, na deflagração da Calicute. A PF foi à casa dele em Ipanema, zona sul do Rio, para cumprir um mandado de prisão preventiva contra ele. Na ocasião, a Procuradoria da República, no Rio, apontou que ele tentou fugir carregando uma maleta com R$ 22 mil em dinheiro em espécie.

Em depoimento, Jordão negou que estivesse preparando algum "tipo de fuga", mas que faria pagamentos de uma viagem planejada com a família para São Paulo além e outras despesas. Pelo cargo no governo, Jordão contou que recebia pouco mais de R$ 3 mil mensais, mas reconheceu que arrecadava cerca de R$ 80 mil em faturamento mensal em sua empresa de consultoria.

Questionado sobre ter recebido mais de R$ 3 milhões entre 2009 e 2016 via depósitos bancários, ele justificou que foram pagamentos por serviços de consultoria, pela AWA Consultoria. Jordão está preso no complexo de Bangu há seis meses, como Cabral, mas numa cela separada, por não tem curso superior.

De acordo com a Procuradoria da República no Rio, ele é peça-chave do sistema de recolhimento de propina de empreiteiras que realizavam obras de construção civil de vulto no Estado. A cobrança foi feita entre os anos de 2007 e 2014 (os dois mandatos de Cabral) e era chamada de "taxa de oxigênio".

Funcionário da Secretaria de Obras, Garcia marcava encontros com representantes das empreiteiras usando a seguinte senha: "Vamos tomar um café". As entregas eram regulares. Seu nome foi citado por delatores da Andrade Gutierrez e da Carioca Engenharia. Ele também se encontrava com emissários da Delta Engenharia, da Queiroz Galvão, da Odebrecht e da OAS.

Ao fim do depoimento, Jordão chorou e pediu que o juiz Bretas autorizasse que ele mudasse do regime fechado para prisão domiciliar. "Vai fazer seis meses que estou vivendo entre rato e barata todo dia. Estou pedindo perdão ao povo do Rio de Janeiro", apelou o acusado. "Eu sei que o crime que fiz é um crime. Quem rouba um real, quem rouba um milhão, quem leva um envelope, quem pega uma cocaína", completou.

'Faz-tudo'. Bretas também tomou o depoimento do bombeiro Pedro Ramos de Miranda, ex-assessor pessoal de Sérgio Cabral, apontado nas investigações como "faz-tudo" do ex-governador. Ele também é réu na Calicute acusado de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. De acordo com a denúncia, ele participou da lavagem de pelo menos R$ 6,5 milhões com a aquisição de joias nas joalherias Antonio Bernardo e H. Stern.

O bombeiro negou que tenha comprado joias a pedido de Cabral ou de sua mulher. Em sua função de secretário pessoal, ele relatou que apenas atendia ligações, anotava recados e marcava os encontros que o ex-governador pedia. Ele revelou que recebia um salário de R$ 15 mil reais em espécie, mas que nunca suspeitou da origem do dinheiro porque o chefe sempre foi uma pessoa de posses.

"Nunca questionei. Desde que conheci, ele era uma pessoa rica, de posses, então nunca questionei", disse Miranda. Ele também confirmou que recebia alguns envelopes endereçados a Cabral de um dos operadores do esquema de corrupção, Luiz Carlos Bezerra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.