Tuca Vieira/Divulgação
Tuca Vieira/Divulgação

Evento em SP discute ataques à imprensa no mundo

Jornalistas brasileiros e estrangeiros debatem avanço do autoritarismo e seus efeitos sobre a liberdade de expressão

Paula Reverbel, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2019 | 21h46

SÃO PAULO - A crise das democracias liberais e os ataques à imprensa foram o tema do Festival Piauí de Jornalismo neste fim de semana em São Paulo. Profissionais de Venezuela, Hungria, Estados Unidos, Líbano, Síria, Polônia, Rússia, Turquia e Nicarágua  discutiram a profissão sob o mote “quando a imprensa se torna o adversário”.

“No fundo, o que a gente mostrou aqui com os oito convidados é um espectro que vai de uma democracia consolidada cujo presidente não é um democrata – que é o caso do Trump – mas que tem que se render às instituições de controle, até países que deixaram de ser democracia, como a Venezuela”, disse ao Estado João Moreira Salles, fundador da revista piauí.

“E no meio do caminho você tem Rússia, Hungria, Polônia. É uma escadinha, né? Então a gente sabe a direção para onde isso vai, e aí a gente tem que escolher quantos degraus a gente aceita (descer)”, afirmou. Salles disse que o tema se impôs naturalmente, visto que instituições democráticas de controle – a imprensa incluída – estão sob ataque no mundo. “Inclusive nos Estados Unidos, cujo presidente cria a expressão ‘fake news’, que é usada pelo nosso presidente (Jair Bolsonaro). Então, o tema desse ano não podia ser outro.”

Para a norte-americana Jane Mayer, correspondente em Washington da revista The New Yorker, o maior desafio da imprensa é convencer o público de que é digna de confiança.

Mayer contou em seu painel que, ao produzir reportagens sobre a atuação dos bilionários irmãos Koch – que financiaram ativismo de extrema direita nos EUA –, foi falsamente acusada de plagiar trabalhos dos colegas. Cada uma das supostas vítimas, porém, desmentiu as acusações que constavam em um dossiê produzido contra ela.

No outro extremo da exposição ao risco está a repórter de origem libanesa Rania Abouzeid, que cobre conflitos na Síria pela National Geographic. “Embora eu não consiga cobrir conflitos sem estar presente, entendo que veículos relutem em mandar repórteres para algumas coberturas muito perigosas”, afirmou. 

“Talvez isso seja uma questão para os estudantes de jornalismo da atualidade, se pode-se desenvolver uma maneira de fazer essa cobertura sem enviar pessoas.” A dica que ela dá a quem quer cobrir conflitos é: “Sempre há vida na guerra, há sempre bolsões de outras coisas que estão acontecendo (além do conflito) – procure por eles, lembre deles. Não reproduza apenas os bombardeios e essas coisas que a gente vê na tela.”

O festival teve ainda a participação da turca Pelin Ünker, do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ); da venezuelana Beatriz Adrián, correspondente em Caracas da emissora de TV colombiana Caracol; do polonês Piotr Pacewicz, editor-chefe do portal OKO.press, especializado em checagem de fatos e cobertura de políticas públicas; do russo Ivan Golunov (portal Medusa); do nicaraguense Carlos Fernando Chamorro, da revista Confidencial, e do húngaro Tamas Bodoky do portal Atlatzo.

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