Europa e Brasil, algo a ver?

Duas semanas atrás, o presidente do Banco Central Europeu(BCE), Mario Draghi, fez importante palestra para uma atenta plateia de analistas e investidores, em Londres, sobre as responsabilidades do BCE quanto ao euro. O discurso de 26 de julho teve grande repercussão nos mercados.

PEDRO S. MALAN - economista; foi ministro da Fazenda no Governo Fernando Henrique Cardoso. E-mail: malan@estadao.com.br - O Estado de S.Paulo,

12 de agosto de 2012 | 04h12

 

Primeiro, porque na reunião de cúpula de 28-29 de junho passado o comunicado dos chefes de Estado dizia: "Nós reafirmamos o nosso compromisso firme de fazer o que for necessário para assegurar a estabilidade financeira na eurozona, em particular quanto ao uso dos instrumentos existentes (EFSF/ESM) de maneira flexível e eficiente, de modo a estabilizar os mercados".O forte discurso de Draghi foi lido, de início, como um sinal de que as conversações intraeurozona estavam avançando.

 

Segundo, e mais importante, porque Draghi, referindo-se aos custos proibitivos que alguns Países europeus estavam pagando para refinanciar suas dívidas(leia-se Espanha e Itália), afirmou: "Na medida em que estes spreads impedem o funcionamento dos canais de transmissão da política monetária e envolvem riscos de conversibilidade na zona do euro, eles se situam no âmbito do nosso mandato...e,nos termos do seu mandato, o BCE está pronto a fazer o que for necessário (whatever it takes) para preservar o euro". E emendou: "Acreditem em mim, isso seria o suficiente".

 

O recurso retórico desta última frase foi o que moveu corações, mentes e nervos nos mercados. Afinal, parecia que havia luz no fim do túnel e que talvez estivessem sendo reduzidas gradualmente as conhecidas resistências alemãs, baseadas tanto em seu jogo político doméstico como na interpretação do tratado europeu que proíbe que o BCE estenda créditos a países soberanos (apenas a instituições financeiras ou a entes que possam receber "licença bancária" e atuar como se instituições financeiras fossem).

 

Mas o primeiro-ministro da Itália, Mario Monti,em entrevista ao Wall Street Journal na semana passada, após ressaltar a importância da parte do comunicado dos chefes de Estado acima citada, afirma que,com base naquele compromisso: "Se eu fosse presidente do BCE me sentiria moral e politicamente protegido em tomar passos ousados no momento apropriado". Muitos, e não apenas na Espanha e na Itália, pensavam como Monti, ao acharem que Draghi estaria preparando o terreno para ação do BCE.

 

Draghi tem sido cauteloso desde seu discurso londrino.Quem escalou e subiu o tom foi o outro Mario(Monti),que,em entrevista ao periódico Der Spiegel também na semana passada, agora disse algo que surpreendeu os que conhecem bem seu estilo sereno, equilibrado e cuidadoso no uso das palavras. Monti disse que "os governos não se podem colocar numa situação de total dependência de seus Congressos na escolha de políticas para salvar o euro". E mais: que a Europa estava mostrando "traços de‘dissolução psicológica’ nesta crise" e que suas lideranças políticas estavam "fazendo pouco para contê-la". A imprensa registrou que Angela Merkel, em suas férias nos Alpes, ligou para Monti para lhe assegurar que faria..."o que fosse necessário" para salvar o euro.

 

Maso fato é que a escalada de Monti expressa o sentido de urgência que passou a prevalecer nos países mais afetados, à luz dos riscos crescentes para sua continuada participação no projeto de moeda única. Não é segredo para ninguém que estimativas detalhadas estão sendo feitas tanto pelo setor privado como pelo setor oficial sobre os custos, por exemplo,de uma saída da Grécia. Essas estimativas, necessariamente, têm de incluir o previsível efeito contágio sobre outros países vulneráveis, uma vez que fique evidente que a eurozona enfrentou, de fato, uma "primeira" saída.

 

A visão que ainda prevalece parece ser a de que, no momento, uma ou mais saídas do euro seriam muito arriscadas e envolveriam altíssimos custos para o conjunto. Mas, também, à medida que o tempo passa é cada vez mais arriscada e potencialmente muito mais custosa a demora excessiva em tomar decisões à altura do desafio. E o país-chave para tais decisões é uma Alemanha internamente dividida sobre o que fazer agora.

 

Por que é importante para nós, brasileiros, entender o que ocorre - e o que pode ocorrer - Na Europa? Porque a crise europeia está contribuindo para desacelerar o crescimento dos EUA, como reconheceu Ben Bernanke também na semana passada. E ambos, Europa em crise e EUA desacelerando, têm efeitos negativos sobre as taxas de crescimento asiáticas e, portanto, afetam o restante do mundo. Relatório recente do FMI com foco no efeito dos "Systemic 5" - EUA, China, eurozona, Japão e Inglaterra - mostra isso claramente.

 

A crise com que se depara o mundo desenvolvido há cinco anos não será superada por alguns anos mais. Não era - e não é - uma "marolinha", como se pretendeu por aqui. Foram-se as expectativas de que os países emergentes se teriam "descolado" dos problemas do mundo desenvolvido e, nas suas interações, adquirido uma dinâmica própria que lhes asseguraria um crescimento sustentado no longo prazo, independentemente do que ocorresse no mundo desenvolvido.

 

Ficou claro para a maioria dos países emergentes que eles também, assim como os países mais ricos, enfrentam dois tipos de riscos: de uma desaceleração cíclica que já não se conta em poucos meses e de uma erosão de mais longo prazo no seu crescimento potencial. O primeiro risco pode ser administrado, ainda que a um custo alto no curto/médio prazo. O segundo é muito maior, porque envolve questões mais estruturais, como produtividade e competitividade internacional, tecnologia e inovação, capital físico e humano, marcos regulatórios e instituições modernas que favoreçam o investimento público e privado, doméstico e internacional. Tudo isso tem a ver conosco.

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