Wilton Junior|Estadão
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Europa 'acompanha de perto' o impeachment no Brasil

Diplomatas em Bruxelas estimam que a crise brasileira afastou o País das principais decisões internacionais nos últimos meses e a esperança é de que, com uma mudança de governo, o Brasil volte a ser protagonista no cenário internacional

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 06h53

GENEBRA – A União Europeia afirma que a crise brasileira e o afastamento eventual de Dilma Rousseff da presidência está no radar político do bloco. 

"Estamos seguindo de perto a situação", confirmou nesta manhã Catherine Ray, porta-voz para Relações Exteriores da UE. Maior destino dos investimentos europeus na América Latina e um dos dez principais parceiros comerciais do bloco, o Brasil é um dos parceiros estratégicos da UE, ao lado dos EUA, Japão, Canadá e outros. 

Ao Estado, diplomatas em Bruxelas estimam que a crise brasileira afastou o País das principais decisões internacionais nos últimos meses e a esperança é de que, com uma mudança de governo, o Brasil volte a ser protagonista no cenário internacional. 

Uma das apostas do bloco é a negociação de um acordo de livre comércio com o Mercosul, bloqueado há anos. Nos corredores da Comissão Europeia, os cálculos apontam que um governo que não seja liderado pelo PT poderia ter mais espaço para propor aberturas comerciais. 

Mas, desta vez, a UE quer a introdução de regras anti-corrupção em um eventual acordo comercial com o Mercosul, principalmente no que se refere à liberalização de licitações públicas. 

Falando em Genebra ao Estado, a comissária de Comércio da UE, Cecilia Malmstrom, confirmou que a retomada das negociações com o bloco sul-americano vai ocorrer, mesmo diante da crise política no Brasil. 

Ela deixou claro que vai pedir que, no tratado, um “capítulo ou uma sessão anti-corrupção” seja incluído. “Não vou comentar sobre a situação interna do Brasil. Entendo que existem muitas dificuldades”, disse. “Mas compras governamentais serão parte da negociação e, como eu desejo e tenho o apoio de todos os países membros da UE, devemos ter um capítulo ou uma sessão sobre anti-corrupção”, explicou. 

Nos últimos acordos comerciais, os europeus tem apresentado a proposta, estabelecendo regras de transparência para licitações públicas que sejam abertas à concorrência estrangeira. O segmento de compras governamentais no Mercosul é de grande interesse aos investidores europeus, diante das projeções de que os governos do Cone Sul terão de gastar bilhões de dólares nos próximos 20 anos para incrementar os serviços de infraestrutura diante da demanda da economia.

Mas, no caso do diálogo com o Brasil neste momento, a iniciativa de exigir mais transparência ganha um novo peso. 

Além disso, negociadores brasileiros apontam que se a maior transparência nos critérios de seleção das empresas vencedoras será exigido, isso também terá de ser respondido pelo setor privado da UE.

Se no Brasil dezenas de contratos públicos estão sendo alvo de inquéritos por conta de pagamentos de propinas, não são poucas as multinacionais europeias que, nos últimos anos, foram acusadas de subornar funcionários públicos brasileiros para ficar com contratos ou estabelecer cartéis. Entre elas estão a francesa Alstom e a alemã Siemens, além de pelo menos três empresas norueguesas e uma holandesa no caso da Operação Lava Jato. 

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