''''EUA perderam força e o Brasil ocupa espaços''''

Os Estados Unidos vêm perdendo força, já não são uma estrela de primeira grandeza e o Brasil aproveita o momento histórico para ocupar os espaços possíveis - coisa que seus vizinhos também procuram fazer. Isso não significa que a América Latina esteja indo para a esquerda: apenas que o equilíbrio é outro. Mas engana-se quem imaginar que essa "autonomia" é um fato novo: a agenda entre os dois países já era intensa e marcada por tensões e divergências em outros períodos do passado. Um exemplo: o governo do Império rompeu relações três vezes com Washington, em meados do século 19. Outro, mais recente: o regime militar brigou muito e votou 185 vezes contra o interesse americano na ONU, entre 1964 e 1985. O afastamento a que se assiste hoje ocorre, porém, num cenário em que o País se industrializou e modernizou e já dilatou sua diplomacia para muitas outras regiões.Episódios como esses são analisados com profundidade em Presença dos Estados Unidos no Brasil, um livro já considerado clássico do professor de História da Política Exterior Luiz Alberto Moniz Bandeira - trabalho que ele atualizou e está relançando esta semana. Nesta entrevista ao Estado, o professor, que já lançou mais de 10 livros sobre o tema, avalia a convivência entre os dois países.O sr. diz que os EUA são hoje um país mais vulnerável. De que modo isso altera as relações entre os dois países?Os EUA não são mais uma estrela de primeira grandeza. O advento de governos de esquerda no continente, como os de Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, e mesmo o presidente Lula, no Brasil, não significa que a América Latina se tornou mais esquerdista. E nem que os Estados Unidos mudaram a sua política. Simplesmente os Estados Unidos perderam força. Na região eles tentaram planos de estabilização com os governos militares, não funcionou a contento. Depois tentaram com governos democraticamente eleitos, aplicando o Consenso de Washington, também não adiantou. Hoje, vêem o distanciamento desses países e se pudessem se livrariam de figuras como Hugo Chávez, na Venezuela, mas não vêem condições para isso. No resto do mundo, como o sr. vê esse quadro?Eles não podem deixar de reconhecer o Bric (o grupo Brasil-Rússia-Índia-China), que são novas potências regionais. Enfrentam enormes déficits, comercial e orçamentário. A dívida do povo americano é quase do tamanho do PIB do país, coisa de US% 9 trilhões. Há uns US$ 2 trilhões de papéis americanos em poder de Europa, Japão e China. Essa crise que estourou agora, lembro-me que o Joseph Stiglitz previu uns três anos atrás. No seu livro, abordam-se outros momentos dessa história.O livro, agora atualizado, mostra que o Brasil, ao contrário do que se imagina, nem sempre se submeteu à predominância americana. Ao contrário. Embora dependesse dos EUA como comprador de seu café, o principal produto, o Brasil reagia à predominância americana. Por exemplo, durante o período imperial, por três vezes o Brasil cortou relações com os EUA. Depois, eles tomaram posição contra o Brasil na guerra contra a Argentina (em 1827), de novo contra o Brasil na guerra do Paraguai (1865). Quiseram invadir a Amazônia (entre 1849 e 54), quando o Brasil quase foi à guerra contra eles. Que briga foi essa, pela Amazônia?Eles queriam transportar os negros americanos para a região. Para isso, era preciso abrir o Rio Amazonas à navegação. O Brasil não deixou. Só o fez em 1865, durante a guerra do Paraguai, por temer que os EUA insuflassem o Peru e o Equador contra o Brasil naquela ocasião. No regime militar, houve momentos críticos nas relações entre os dois países. Como o sr. analisa hoje aquelas divergências?Dediquei um livro a essas relações desse período, chamado Rivalidade Emergente. O fato é que os interesses nacionais são definidos pelas necessidades da produção de um país. A partir dos anos 50 o Brasil tornou-se predominantemente industrial, o café diminuiu seu peso nas exportações, dando lugar às manufaturas. O País começou a buscar outros mercados e isso teria impacto na política exterior, que até então era alinhada como a Casa Branca. Daí aquela virada com o governo de Jânio Quadros (1961), depois com João Goulart (1961-64). Começaram os atritos. Houve cobrança também, no governo Jimmy Carter, contra os abusos dos militares na questão dos direitos humanos...Não, essa não foi uma grande razão. Aquilo foi um pretexto dos EUA para deixar o governo brasileiro na defensiva. Mas o fulcro da briga, então, foi de fato o acordo nuclear do Brasil com a Alemanha Ocidental. O que os preocupava era a hipótese de um caminho próprio para a energia nuclear nacional. O Brasil já podia fornecer grande parte do material de suas Forças Armadas, devido a seu processo de industrialização. E o acordo militar com Washington só fazia atrasar a produção armamentista do Brasil, sua evolução tecnológica. Então Geisel denunciou o acordo. Então os conflitos sempre foram intensos?A certa altura, os EUA temeram pelo futuro do Atlântico Sul. O Brasil apoiava Angola, Cuba também a apoiava até militarmente, o Atlântico Sul ameaçava virar um mar brasileiro. De 1968 a 1985, o Brasil votou 185 vezes com a União Soviética e países do chamado Terceiro Mundo, na Assembléia Geral das Nações Unidas - mais vezes do que a favor dos Estados Unidos. No governo Geisel, o Brasil até apoiou uma moção que considerava o sionismo uma forma de racismo. Como você vê, a dimensão e variedade dos problemas era até maior do que a que assistimos hoje. Qual é, então, a diferença entre as relações hoje e naquele período?Hoje, a situação é diferente porque, além de os EUA perderem força, o Brasil, por seu lado, está diversificando seus mercados. E vale lembrar: se não fizesse isso, a crise que vivemos hoje - surgida com os créditos podres no sistema habitacional americano e espalhada pelo resto do mundo - afetaria muito mais o Brasil. Uma recessão americana, hoje, afeta muito menos a economia brasileira porque o País dilatou sua política externa e se relaciona de forma mais diversificada com as mais diferentes regiões. É um avanço importante. Quem é:Luiz Moniz BandeiraÉ formado em direito, doutor em ciência política pela USP e professor aposentado dehistória da política exterior do Brasil na Universidade de Brasília. Grande Oficial da Ordem de Rio Branco, comendador da Ordem de Mayo (Argentina) e portador da Bundesverdienstkreuz (Cruz do Mérito Primeira Classe), conferida pelo governo da Alemanha.

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