EUA e Wall Street acompanham crise com ansiedade

A crise que parece ter tornado inexorável a saída do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, não alterou o cálculo predominante no governo americano sobre o panorama político brasileiro. A aposta nos meios oficiais de Washington que acompanham o Brasil é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tendo se recuperado do escândalo do mensalão e reassumido folgada liderança nas pesquisas de opinião, continua no controle político da situação, fará o que for necessário para ficar politicamente imune ao novo episódio e mantêm excelentes chances de renovar o mandato, nas eleições de outubro próximo.No entanto, a difícil situação criada para o ministro, seja pela revelação de que ele freqüentava uma casa de folguedos sexuais e lavagem de dinheiro de origem desconhecido mantida em Brasília por seus correligionários da chamada República de Ribeirão Preto, seja por ter permitindo que se cometesse um crime contra as leis federais do segredo bancário, na desastrada tentativa de desacreditar o caseiro que confirmou sua presença assídua na mal-afamada residência brasiliense, criará dificuldades para Palocci em seus encontros internacionais, se ele permanecer no cargo. Fontes bem informadas disseram ao Estado que a recente barragem de notícias sobre os possíveis vínculos de Palocci com atividades ilícitas criou problems para o agendamento encontros separados do ministro com alguns interlocutores durante recentes reuniões do grupo dos Oito em Londres e Moscou.Se ele resistir no cargo, a reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, programada para a terceira semana de abril, poderá revelar-se constrangedora para Palocci, disseram essas fontes.Em Wall Street, a triste saga do ministro da Fazenda produziu análises e previsões convergentes, no final da semana. "Não há pânico no mercado, mas há ansiedade", disse Ricardo Amorim, estrategista para a América Latina do West LB. "Claramente, a blindagem do Palocci por parte da oposição acabou, mas minha percepção é que Lula continua apoiando o Palocci e que isso só deixará de acontecer se e quando o custo eleitoral da manutenção de Palocci tornar-se mais elevado que o ganho de estabilidade financeira e blindagem pessoal do Lula que a permanência do ministro propicia", acrescentou. "Se o Palocci cair, Lula será o próximo alvo das acusações de corrupção da oposição", previu. "Pode soar paradoxal, mas com o Palocci no governo, o Lula fica mais protegido das críticas diretas da oposição".Para Amorim, "a reação do mercado a uma eventual saída do ministro dependerá do sucessor". Pessoalmente, o economista do West LB disse que "ficaria positivamente surpreso se o escolhido for (o atual secretário executivo do ministério) Murilo Portugal".Eventual saída de Palocci chama atenção do mercado financeiroAlexander Kazan, do banco de investimentos Bear Stearn, preveniu os clientes que a saída de Palocci do ministério levaria a uma queda imediata dos papéis brasileiros no mercado de capitais. "Se essa tendência continuaria ou não, no curto prazo, depende de quem será o sucessor", explicou ele ao Estado. "Os investidores prefeririam um tecnocrata conhecido e respeitado como Murilo Portugal para assumir o ministério do que uma nomeação abertamente política"."A mais longo prazo, a troca de ministros da Fazenda poderá aumentar o interesse da comunidade de investidores pela eleição presidencial", acrescentou Kazan. "Palocci ainda é visto como uma âncora do forte compromisso de Lula com a estabilidade macroeconômica e sua partida deixará muitos investidores menos confiantes na determinação de Lula de caminhar na direção das reformas econômicas num segundo mandato e de executá-las com sucesso".Na mesma linha, o analista Chritopher Garman, do Eurasia Group, preveniu os clientes, na sexta-feira, de que, se o ministro da Fazenda deixar o cargo, "a eleição presidencial passará a ser relevante para o mercado financeiro, na medida em que os investidores terão mais preocupações a respeito de um eventual segundo mandato de Lula". Na hipótese de se confirmar a saída de Palocci, que considerava menos provável do que a de sua permanência, no final da semana, o analista acredita que Lula tenderá a nomear para o lugar um político petista de peso, como senador Aloisio Mercadante ou o deputado federal licenciado e atual ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.

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